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A CIDADE INVENTADA
Por Ana Cláudia Lima Alves
"...pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa".
Carlos Penna Filho
Imerso na fantástica poeira vermelha, no vermelho seco ensandecido daquele entardecer de junho de 1959, o jipe ia em alta velocidade. Perseguido de repente por uma buzina estridente, insistente, desesperada, o carro freou., derrapou e, quase soçobrando na poeira, parou afinal. Atônito, tentando entender o que acontecia, meu pai desceu do jipe e, meio sufocado pela poeira que baixava, percebeu, dois metros adiante, uma imensa e funda cratera. O coração batia alucinado. Ainda em meio à poeira que envolvia o mundo, ele ouviu: "Cê tá louco, moço?!!!". Era o motorista do ônibus, que impedira o desastre como o seu buzinaço. "Que lugar é esse?", meu pai perguntou. E o motorista: "É Brasília. Esse buracão aí, onde você quase despencou, é pra fazer o viaduto do Eixo Rodoviário da Asa Sul... Melhor andar devagar nesse canteirão. Tem obra pra todo lado e a poeira cega a gente..."
Ainda naquele dia, meu pai se dirigiu aos escritórios da Novacap, onde se empregou na Contabilidade e fichou o jipe. Já tarde da noite, foi levado por algum colega para a Cidade Livre, a cidade de madeira estilo farwest que abrigava os construtores da nova Capital. Arranjou uma vaga para passar a noite, mas não dormiu, que a excitação da chegada e a sensação de estranheza do lugar não deixaram – era um mundo diferente, um movimento de tanta gente e carros e tratores e caminhões trafegando sem parar, levantando aquela poeira absurda... A cabeça rodava, cheia de perplexidade, de sonhos e planos. Aqui começava uma vida nova, uma promessa de futuro para ele e sua família, a perspectiva de pagar as dívidas deixadas no Espírito Santo, de largar o destino incerto de caixeiro-viajante...
No dia seguinte, bem cedo, jogou as tralhas no jipe, a mala ainda cheia de mercadorias – dentre outras coisas, meias brancas de algodão, que jamais conseguiu vender em Brasília... Foi para a Novacap, assumir o seu novo emprego e mergulhar no alucinante ritmo de trabalho daqueles tempos. Até a inauguração da capital, trabalhava 16 horas por dia. E o jipe também, rodando dia e noite a serviço da Novacap.
Nesse início ocupou, por mais de um mês, a mesma cama de um músico de boate, que tocava à noite e dormia de dia – havia enorme carência de acomodações na cidade em construção. Depois arranjou vaga num dos alojamentos da Cidade Livre, que existiam às dezenas e eram partilhados por profissionais de todas as classes e categorias, menos os operários das obras. Estes, os chamados candangos, tinham seus alojamentos nos canteiros de obras do Congresso, dos palácios, da Praça dos Três Poderes, da Rodoviária, das superquadras, do Hospital, da Torre de TV, tudo sendo construído ao mesmo tempo.
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