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08 de Março de 2008

A CIDADE INVENTADA
Por Ana Cláudia Lima Alves

"...pois é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa".

Carlos Penna Filho

       Imerso na fantástica poeira vermelha, no vermelho seco ensandecido daquele entardecer de junho de 1959, o jipe ia em alta velocidade. Perseguido de repente por uma buzina estridente, insistente, desesperada, o carro freou., derrapou e, quase soçobrando na poeira, parou afinal. Atônito, tentando entender o que acontecia, meu pai desceu do jipe e, meio sufocado pela poeira que baixava, percebeu, dois metros adiante, uma imensa e funda cratera. O coração batia alucinado. Ainda em meio à poeira que envolvia o mundo, ele ouviu: "Cê tá louco, moço?!!!". Era o motorista do ônibus, que impedira o desastre como o seu buzinaço. "Que lugar é esse?", meu pai perguntou. E o motorista: "É Brasília. Esse buracão aí, onde você quase despencou, é pra fazer o viaduto do Eixo Rodoviário da Asa Sul... Melhor andar devagar nesse canteirão. Tem obra pra todo lado e a poeira cega a gente..."
       Ainda naquele dia, meu pai se dirigiu aos escritórios da Novacap, onde se empregou na Contabilidade e fichou o jipe. Já tarde da noite, foi levado por algum colega para a Cidade Livre, a cidade de madeira estilo farwest que abrigava os construtores da nova Capital. Arranjou uma vaga para passar a noite, mas não dormiu, que a excitação da chegada e a sensação de estranheza do lugar não deixaram – era um mundo diferente, um movimento de tanta gente e carros e tratores e caminhões trafegando sem parar, levantando aquela poeira absurda... A cabeça rodava, cheia de perplexidade, de sonhos e planos. Aqui começava uma vida nova, uma promessa de futuro para ele e sua família, a perspectiva de pagar as dívidas deixadas no Espírito Santo, de largar o destino incerto de caixeiro-viajante...
       No dia seguinte, bem cedo, jogou as tralhas no jipe, a mala ainda cheia de mercadorias – dentre outras coisas, meias brancas de algodão, que jamais conseguiu vender em Brasília... Foi para a Novacap, assumir o seu novo emprego e mergulhar no alucinante ritmo de trabalho daqueles tempos. Até a inauguração da capital, trabalhava 16 horas por dia. E o jipe também, rodando dia e noite a serviço da Novacap.
       Nesse início ocupou, por mais de um mês, a mesma cama de um músico de boate, que tocava à noite e dormia de dia – havia enorme carência de acomodações na cidade em construção. Depois arranjou vaga num dos alojamentos da Cidade Livre, que existiam às dezenas e eram partilhados por profissionais de todas as classes e categorias, menos os operários das obras. Estes, os chamados candangos, tinham seus alojamentos nos canteiros de obras do Congresso, dos palácios, da Praça dos Três Poderes, da Rodoviária, das superquadras, do Hospital, da Torre de TV, tudo sendo construído ao mesmo tempo.

 

 

       Quando viemos nos juntar a meu pai, em 5 de janeiro de 1960, ainda prevalecia a carência de moradias. Moramos num hotel na Cidade Livre, depois numa casa na W3, emprestada por um colega dos meus pais na Novacap (minha mãe também trabalhava lá), até conseguir uma casa de madeira no Acampamento Tamboril, na Vila Planalto. Um luxo, a nossa casa com cinco cômodos, de frente para o vasto cerrado, nos fundos do Palácio do Planalto.

       Para uma menina com dez anos incompletos, Brasília em construção era o mais fantástico parque de diversões. Meus três irmãos e eu, mais os raros amigos que conseguíamos juntar nessa vida cigana, brincávamos de esconde-esconde nos intermináveis e profundos labirintos das veias abertas na terra vermelha para receber galerias de águas pluviais, fiação elétrica e telefônica. Escalávamos montes de cascalhos, correndo em meio às máquinas e à azáfama de terraplanagem das vias. Sempre brincando, urbanizamos praças e asfaltamos ruas e avenidas, nos sujando de piche, que levava semanas para desgrudar de nossos pés.

       A cada dia, nosso caminho de ida-e-volta para casa se transformava, os pontos de referência se perdiam, alterados pelas novas edificações e vias que surgiam assim, como por encanto. Não era raro nos perdermos...No entanto, jamais tive qualquer sensação de estranhamento com o ritmo frenético de construção e transformação do espaço urbano. Achava tudo tão normal que cheguei a acreditar, por algum tempo, que todas as cidades do mundo se faziam assim. A consciência da criança não alcançava a dimensão do feito extraordinário que era a implantação daquela metrópole moderna e monumental no meio do cerrado, sem rodovias de ligação com os principais centros industriais do país, e com todos os desafios colocados pelo urbanismo de Lucio Costa e pela arquitetura de Oscar Niemeyer. Sem contar o prazo marcado para a sua realização, pouco mais de três anos.

       Graças ao engenho, à arte e ao trabalho abnegado de milhares de brasileiros, vindos de todas as partes do país, e graças ainda à obstinação e capacidade de liderança do presidente Juscelino Kubitschek e de seu pequeno grupo de auxiliares, foi possível realizar tal projeto. Ao ser inaugurada, em 21 de abril de 1960, Brasília apresentava a grandiosidade da concepção do seu plano urbanístico nos palácios, na Praça dos Três Poderes, na Esplanada dos Ministérios, na Rodoviária, nos Eixos Monumental e Rodoviário, nas avenidas e superquadras das Asas Norte e Sul, tudo ainda permeado por amplos espaços de terra vermelha, que logo se transformariam nos verdes gramados e bosques que hoje se apresentam na cidade-parque.

       Ao ser inaugurada, a capital possuía 3.200 residências, escolas, hospital, lojas comerciais e de serviços, supermercados, um centro de abastecimento hortifrutigranjeiro, hotéis, restaurantes, jardim zoológico, igrejas, bancos, cinemas. Tudo isso dotado de rede de água e esgoto, geração e distribuição de energia elétrica, 15.000 telefones instalados, serviços de correio e redes de comunicação – estações de rádio e televisão, sucursais dos grandes jornais nacionais e um jornal de circulação local.

       Cumprindo a determinação de ser a meta-síntese do governo Kubitschek – 50 anos de desenvolvimento em cinco anos de mandato – a construção de Brasília impulsionou o desenvolvimento da região Centro-Oeste e do Brasil como um todo, demandando a construção de estradas de rodagem que a articulavam com todas as regiões do país, junto ao notável desenvolvimento de setores técnico-industriais que buscaram soluções inovadoras para a execução dos projetos de Niemeyer e Lucio Costa, revolucionando assim o conhecimento e a indústria de construção civil.

       Dentre as extraordinárias condições da construção de Brasília, guardo vaga lembrança das conversas de meu pai sobre a forte oposição feita ao projeto por uma parte da classe política, juntamente com parcela da mídia e vários setores da sociedade, que, sob inúmeros argumentos, jamais aceitaram a idéia da transferência da capital da República, do Rio de Janeiro para o Planalto Central do Brasil.

       Em meio a tudo isso, nós, pioneiros da nova cidade-capital, sem duvidar da sua realidade, fomos construindo, crescendo e adolescendo com Brasília.

Estudamos na Escola-Classe e na Escola-Parque da 308, no CASEB, no Elefante Branco – todos da rede pública de ensino, que tratava de implantar um projeto inovador de educação para formar os novos cidadãos, responsáveis pela construção de um novo país. Esse projeto de uma educação libertária e integral foi conduzido brilhantemente por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

 

 

 

Vidas projetadas no cotidiano

       Na cidade que nascia, ainda carente de opções de lazer, nos divertíamos assistindo ao Mil Quilômetros de Brasília, corrida cujo circuito cruzava o Eixo Monumental na Rodoviária e passava em frente ao Hotel Nacional. Freqüentávamos o Cine Cultura, o cinema da Escola-Parque, o Cine Brasília, cujas sessões e debates foram a semente do já tradicional Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que completa 36 edições em 2003. Também são desse tempo os cines Bruni 1,2 e 3, no desértico Setor Bancário Norte, onde me lembro de ter assistido a Morangos Silvestres e Persona, de Ingmar Bergman. Depois do cinema íamos tomar sorvete na Kibon, na rua do Distrital, ou na Padaria Pigalle, na 305, onde também se flertava, e muito... Arranjava-se namorado também nos bailes do Iate e do Clube do Congresso, o Congressinho, onde a juventude da época se reunia, a cada fim de semana.

       As lembranças desses tempos, alegres e descuidados, vêm perpassadas por sentimentos de angústia e ameaça. Quando a ditadura se impôs, em 1964, começaram as perseguições, as cassações de políticos e dirigentes. Brasília foi interrompida. Muitos conhecidos nossos, técnicos e diretores da Novacap e da Prefeitura, que davam continuidade ao projeto de construção da cidade, foram demitidos, perseguidos. Com 14 anos naquela época, lembro-me das conversas dos adultos, das sensações de medo e incerteza.

       Brasília e sua gente sofreram, como poucas cidades do Brasil, os desmandos daqueles anos de chumbo. Em 1968, a UnB foi invadida e amordaçada, grande parte dos professores foi expulsa e exilada. No mesmo ano, o Congresso Nacional foi fechado e a cidade sentiu seus efeitos na paralisação de projetos, na estagnação econômica. Sofremos também, muito de perto, as arbitrariedades da milicada se instalando e ocupando a cidade, por eles considerada segura. Paradoxalmente, foi a ditadura que consolidou Brasília como Capital da República, ao instalar aqui o centro das decisões nacionais e transferir para cá, na Avenida das Nações, as sedes das embaixadas estrangeiras, distanciando-se assim dos seqüestros e outras ações dos movimentos guerrilheiros de oposição ao regime militar.

       Com a ditadura, ou apesar dela, os moradores de Brasília continuaram construindo a cidade e sua identidade, em boa parte forjada na resistência surda ao poder. Resistência que, muitas vezes, explodia e se escancarava, como aconteceu com o enterro de JK, realizado aqui em 1976, pela força irresistível da população, contra a pressão armada dos militares. Ainda nos anos 70, surgem os movimentos de cultura de massa de Brasília, as bandas de rock, com suas letras irreverentes e contestadoras, que acabaram conquistando o país. Surge o Esquadrão da Vida de Ary Pararraios, tomando as superquadras e as ruas de Brasília e das cidades-satélites, com sua alegria e irreverência contrapondo-se aos horrores do Esquadrão da Morte, que então barbarizava São Paulo e Rio de Janeiro.

       Em 1978, nasce o Movimento Cabeças, por iniciativa do produtor cultural Néio Lúcio e de artistas como Eurico Rocha e Wagner Hermuche, para ocupar o quintal coletivo da SQS 311 e os espaços públicos da cidade com shows de música, oficinas e exposições de arte. Uma delícia participar desses encontros, fazendo-os acontecer e incorporando nossos filhos ao processo – nesse tempo, nós, os pequenos pioneiros do início da construção da cidade, já havíamos produzido uma nova geração de brasilienses. No mesmo ano, sai pela primeira vez o Pacotão, bloco carnavalesco que respondeu com sátira e ironia ao pacote econômico do governo Geisel e, desde então, vem nos arrastando em multidão com sua marchas e gozações aos políticos e dirigentes de plantão.

       Vivendo a ambigüidade de abrigar e conviver com os poderes federais, ao mesmo tempo lhes fazendo oposição permanente, a população de Brasília tem se mobilizado e expressado cidadania em todos os momentos históricos vividos pelo país. Foi assim com o movimento pelas Diretas Já, com os panelaços promovidos contra os pacotes econômicos, com o movimento do impeachment de Collor...

       Seja para protestar ou para festar, nós os brasilienses temos ocupado os espaços monumentais da cidade em grandes mobilizações que atraem gente de todos os cantos do país. Assim aconteceu nas celebrações do Papa João Paulo 2º, e também na alegre recepção aos pentacampeões mundiais de futebol, em 2002, cuja irreverência alcançou a rampa do Planalto. Em 1º de janeiro de 2003, outra grande festa impressionou o mundo: a posse do presidente Lula, que reuniu uma multidão de sonhos e esperanças para o Brasil.

Aos 43 anos, Brasília, capital projetada, continua em permanente construção, como qualquer outra cidade do mundo. Mas já está consolidada como capital da República de todos os brasileiros e se apresenta hoje – com seus belos monumentos modernistas, suas ruas e largas avenidas, seus parques e jardins, com sua gente e sua cultura, e com todos os seus problemas - como uma síntese das contradições do país. Ao lado dos melhores índices de qualidade de vida do Brasil, o Distrito Federal apresenta os piores índices de desemprego; o mais caro e ineficiente sistema de transporte coletivo, junto à falta de estacionamentos; os mais graves problemas de favelização e invasão de áreas públicas; carência de serviços públicos de saúde, educação e segurança; aumento da violência, exclusão social, corrupção e impunidade.

A síntese se faz também na construção permanente de nossa identidade, marcada, desde a origem, pela pluralidade cultural dos brasileiros de todas as regiões. No modo de falar, no sotaque indefinível do brasiliense, na diversidade da oferta de pratos típicos de qualquer lugar do Brasil, nas bandeiras de todos os times de futebol, na variedade das expressões dos cantadores e forrozeiros nordestinos, no samba carioca da ARUC, no Clube do Choro, na qualidade da música instrumental contemporânea, nos roqueiros, no Boi do Teodoro, na produção de teatro e cinema, nas artes plásticas de expressão moderna e contemporânea, na paixão pelas festas juninas, na recriação de tantas festas de santos de devoção provinciana; aqui se mesclam as referências culturais do Brasil inteiro.

       Assim vivemos as dores e as delícias de continuar construindo este Patrimônio Cultural Brasileiro e Patrimônio da Humanidade chamado Brasília, cidade-capital que vem se inventando desde que se inventou o Brasil.

 

 

Ana Cláudia Lima e Alves, pioneira, pesquisadora do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mestranda em História na UnB.

 

Extraído do livro "Abstrata Brasília Concreta", de W. Hermuche.

 

 
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