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Planalto
"Nada do que é possível pode salvar-nos"
(W.H.Auden)
Ulisses, oráculo, reaparece
(num tempo que não quer mais profetas)
no Planalto,
Penélope só tece dúvidas,
Eclipsado o sagrado: tempos mercantis.
Mas o Planalto é sempre,
além dos burocratas / conversas fatigadas.
Pesa-nos o peso de tanta finitude:
a memória é nossa matéria.
Mas como lidar com tanto esquecimento?
Véspera da eternidade: os dias consumidos
nos aproxima de outro mistério.
Carece preparar os rituais de retorno,
bordando a túnica do passado,
moléculas, terra à terra, pó a pó, ciclos, rios, pedras:
nova forma tomará o feixe de carne / emoções.
Aqui irrompeu a dor, não a redenção
(expulsos do paraíso: vagamos).
Rebanhos eletrônicos, restos de pompa,
retóricas cartorárias, deuses da pecúnia.
Mas cansou-se o pranto,
Queixas exorcizadas,
o espírito sopra onde quer:
aproxima-te, solar manhã.
Foram-se o domingo, regatas, procissões, trapiches,
e um menino (que não salta desta página para restaurá-la).
É vasta a nossa população de mortos.
Somos poucos, muito poucos, mas não sozinhos,
e parecemos muitos.
Sim, o Planalto é para sempre,
e nós – ciganos mirando no Olho de Deus –
não dispomos da totalidade.
As fiandeiras do tempo zombam de nós:
escaparemos do oblívio?
Silencioso e mudo, flui o meu tempo,
ele não passa, nós é que passamos,
(não adiantaram os truques mentais),
e tudo ficou muito rápido,
um bonde, a tarde calma, o piano no subúrbio,
meu coração.
Planalto: aqui ficarão os ossos
(onde o pôr-do-sol não dá vontade de ir embora)
o pássaro enrugou, mas celebrante ainda é.
Planalto:
fundo-me no esquecimento.
(Também somos feitos daquilo que perdemos.)
Deus faz que me esquece:
depois reaparece.
Domingos Carvalho da Silva, poeta português, nasceu em Vila Nova de Gaia.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.
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