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05 de Julho de 2010

Começo de mundo
Por Beth Cataldo
 
A cena teve como endereço um escritório em Nova York, naqueles ambientes elegantes e impessoais em que se entabulam negócios de marca época. A crise econômica de proporções históricas que eclodiu em setembro de 2008, na esteira da derrocada do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, ainda não havia mostrado sua face mais sombria. A sala transpirava curiosidade e expectativa.

De um lado da mesa, um grupo de chineses engravatados e contidos. Do outro, investidores do calibre de William Rhodes, executivo do Citibank – um nome familiar no Brasil que quebrava e recorria ao Fundo Monetário Internacional (FMI), não necessariamente nessa ordem, em décadas passadas. O plano em foco: construir 200 novas cidades na China, cada uma com três milhões de habitantes, até 2030.
 
Meticulosos, os enviados do governo chinês mencionaram projetos arquitetônicos, valores a serem investidos, oportunidades vitais naqueles canteiros de obras que brotariam múltiplos e urgentes, no compasso da grande potência emergente. Os chineses evitaram pronunciar a meta de arrebatar o posto de maior nação industrial do planeta, que justiçava o esforço de erguer os novos núcleos urbanos. Mas nem era preciso, todos ali sabiam dessa ambição.
 
A cada cidade estaria reservado um papel na cadeia produtiva da fábrica do mundo, como a China já foi chamada, assim como se delegou a prestação de serviços à Índia e reservou-se ao Brasil o título de fazenda global.

Especializar comunidades na produção de bens não é nada muito novo para um país que tem municípios inteiros dedicados apenas à confecção de gravatas, outros concentrados em inventar brinquedos e um terceiro, mais adiante, que cuida somente de bolsas e malas.
 
No tempo em que a China incendiava imaginações com a revolução comunista liderada por Mão Tsé-tung, também se discutia, do outro lado do mundo, a construção de uma nova cidade – a capital – no coração de um vasto e longínquo território. Era o momento em que se idealizava Brasília, o engenho destinado ao duplo oficio de encarnar o centro político-administrativo do país e gestar um pólo de desenvolvimento regional.
 
As contradições da marca de nascença ditariam o destino brasiliense em seus primeiros 50 anos de vida, um começo de história atribulado e imprevisível. Os recursos para sua construção, avisou logo o idealizador, Juscelino Kubitschek, seriam subtraídos das fontes possíveis e imagináveis. Valia recorrer aos cofres dos institutos de previdência daquele final dos anos 1950, tornando-os tutores da edificação de quadras residenciais inteiras. Também valiam empréstimos externos, financiamentos para equipamentos, recursos do orçamento...
 
Por fim, quando tudo o mais se esgotara, fazer funcionar a guitarra, ou seja, a emissão pura e simples de moeda, aquilo mesmo que é amaldiçoado pelos rigorosos manuais de economia. Naquele começo de mundo no Planalto Central, foram gastos pelo menos US$ 130 bilhões para construir Brasília, calcula o ex-ministro Ronaldo Costa Couto, que atualizou estimativas apresentadas na época da inauguração da cidade. Pelo menos, porque cálculos precisos nunca se tornaram conhecidos.

A cidade monumental que Juscelino imaginou para inaugurar uma nova era no Brasil seria também estigmatizada como a mãe de todos os processos inflacionários que o país suportaria estoicamente nos anos vindouros. Ou como parente em primeiro grau de um Estado perdulário e fantasioso, ilhado em meio a privilégios, dono de um olhar indiferente e arrogante para o resto do país, visto de longe. A maioria dos brasileiros estaria representada na capital apenas pelos impostos que sustentam as transferências da União destinadas a custear a hospedagem cara e luxuosa dos donos do poder. O que sobrou de um sonho febril parece, muitas vezes, pouco mais do que uma miragem.

O insuspeito economista Raul Velloso, crítico implacável dos gastos públicos excessivos, acredita que os investimentos destinados à construção de Brasília frutificaram, tiveram um efeito catalisador sobre processos que teriam sido deixados à própria sorte e ao passo lento da história. Velloso não concorda que a cidade seja responsável por deformações execráveis. Não fosse a Ilha da Fantasia no cerrado, existiriam “subilhas da fantasia”, como ele chama, encravadas no território do Rio de Janeiro ou do Recife, onde quer que estivesse a capital do país.

A concentração de órgãos públicos e de uma burocracia especializada se encarregaria de gerar um lugar onde os servidores federais teriam maior poder de barganha e influência, com uma visão de país condicionada pela realidade próxima de seu cotidiano. A atração de profissionais comodamente instalados em outros locais também seria feita à custa de vantagens oferecidas em seus primórdios. O resto ficaria por conta dos vícios típicos do setor público brasileiro, como em quase todas as versões estaduais e municipais pelo país afora.

O Estado brasileiro que foi forjado a partir da existência de Brasília, na palavra do especialista, não foi muito diferente do que teria sido em qualquer outro lugar do Brasil. Talvez, sem Brasília, tivesse sido um pouco pior, ele arrisca. Os militares que tomaram a cidade quatro anos depois de sua fundação, e a consolidaram, teriam buscado da mesma maneira um processo de profissionalização da burocracia pública. Os sindicalistas que protagonizam atualmente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ditam os costumes políticos de sua administração não agiriam de modo muito diverso se a capital estivesse no ABC paulista.

O que distingue a experiência da capital inventada por JK e os pioneiros que o acompanharam é a absoluta gravitação da atividade econômica em torno do Estado e de suas ramificações. A cidade pulsa ao ritmo do governo de plantão no Palácio do Planalto, com seus eventuais acertos e suas freqüentes deformações. Encolhe quando os tempos são de vacas magras no orçamento público e se expande quando vicejam reajustes salariais e novas contratações na máquina federal, como acontece no período petista. Ou se queda aterrorizada quando um inesperado Fernando Collor atira sem rumo contra marajás e apartamentos funcionais.

As bancas de jornais forradas de apostilas para concursos públicos não deixam dúvida sobre as forças que movimentam a economia local, nem os cursos especializados que parecem dispostos a arrombar as portas cerradas do Banco Central e da Polícia Federal para instalar lá dentro os candidatos a cargos estáveis. As faixas que adornam a Esplanada dos Ministérios remetem a planos salariais e carreiras públicas, reclassificação de funções e reposição de perdas, compondo uma moldura exclusiva e monocórdia. Os amigos que se reúnem em bares e restaurantes costumam dividir a mesma repartição pública, as mesmas aspirações e os mesmos cobiçados DAS.

No meio do ordenamento rígido das quadras residenciais e da grandiloqüência dos monumentos dedicados às atividades de Estado, os sinais da iniciativa privada parecem intrusos que se imiscuíram no salão sem convite dos donos da casa. Nas áreas que abrigam o comércio agitado da cidade, como o popular Setor de Indústria e Abastecimento, o SAI, reinam fachadas de cores berrantes e desencontradas. Os corredores comerciais dos condomínios que se espalharam pelos arredores de Brasília ostentam uma galeria improvisada e pouco harmoniosa de lojas de material de construção, pet shops de sotaque americano e drogarias.

A população ávida por consumo e qualidade de vida inspira uma atmosfera dinâmica e instigante nessas áreas. Há também o reino afortunado dos shopping centers e das grifes de todos os cantos que vieram em busca dos consumidores de alta renda da cidade, ainda às voltas com escassez de bens de consumo sofisticados. Os barcos e as lanchas que atravessam o Lago Paranoá no final de semana ancoraram Brasília como um dos maiores mercados de produtos náuticos do país. A frota de veículos que aos poucos vai conseguindo ocupar os largos espaços da capital é a que mais cresce no Brasil, para citar alguns dos muitos indícios de prosperidade.

A combinação de estabilidade no emprego e renda média elevada dos funcionários públicos favorece a concessão de financiamentos e a formação de um mercado sólido na região. Os que construíram fortuna à margem de atividades estatais costumam, no entanto, dividir uma reputação pouco recomendável, como se a iniciativa privada fosse sempre sinônimo de falcatrua e os empreendedores nunca passassem de ardilosos contraventores. Mas é essa mistura efervescente e polêmica que molda o perfil da cidade.

No debate sobre a capital posta no Planalto Central, são recorrentes os argumentos que remetem ao que teria se tornado o Rio de Janeiro, ou mesmo o eixo Rio-São Paulo, sem que o fluxo migratório interno fosse parcialmente desviado para o centro do país. Algo irrespirável, responde Ronaldo Costa Couto, estudioso dedicado e perspicaz do assunto, valendo-se das lembranças de um Juscelino Kubitschek que queria “desesperadamente” deixar o Rio. O mineiro que inventou Brasília achava que a então capital não favorecia o que hoje costuma se chamar de governabilidade.

JK assistira ao desenrolar do cerco político a que fora submetido Getúlio Vargas e acreditava que a capital à beira do litoral – como de resto a ocupação do território brasileiro, que foi “arranhando a areia das praias, como caranguejos” – alimentava a crônica instabilidade política do país. Mais tarde, veria que a geografia não pouparia o Brasil de um fulminante golpe militar, e ele, da perseguição do regime dos generais.

Havia também argumentos econômicos e estratégicos para justificar a mudança da cabeça do Estado, muitos dos quais tinham em sua origem o próprio Vargas dos anos 1940 e o movimento da Marcha para o Oeste, que o caudilho gaúcho vislumbrou em seu projeto de país expansionista e poderoso. No seu turno, Juscelino tornou realidade um vasto entroncamento viário em função da nova capital, que significava “uma verdadeira costura do Brasil por dentro”, como definiu no livro “Por que construí Brasília”.

Antes, à frente do governo de Minas, JK havia usado a imagem de que o Estado era um virtual arquipélago e que lhe caberia unir as ilhas desconexas por meio de estradas. Ecoavam em sua memória as viagens que duravam meses do interior para a cidade grande, a desolação do isolamento. Nos vazios do Brasil Central e da Amazônia, a missão que ele e os entusiastas da época se atribuíram era a de estabelecer um novo centro de gravidade do país. Ali mesmo, no cerrado, Juscelino anteviu “o maior deserto fértil do mundo”.

O retrato de hoje mostra que, à força de pesquisas da Embrapa e de desbravadores de todos os lados, a região se tornou um dos principais centros de produção agropecuária do mundo. De fato, o eixo rodoviário que ostenta fez a ligação entre o Norte e o Sul do país, atesta a professora Marília Steinberg, da Universidade de Brasília (UnB), especialista no tema. Ela faz questão de ressaltar, entretanto, que não enxerga um processo de desenvolvimento orgânico e articulado nas regiões cortadas pelas estradas que desbravaram a região.

As condições logísticas e estruturais da nova capital influenciaram fortemente, de qualquer maneira, uma extensa área que abrange desde as chapadas do Piauí até os campos de Mato Grosso, passando pelo Noroeste da Bahia ou o ainda recente Tocantins, completa o executivo Benjamin Sicsú, vice-presidente de uma multinacional da área de tecnologia de ponta. É possível encontrar reflexos da presença de Brasília também no Pará, que está numa das pontas dos fios que costuraram o Brasil por dentro, ou no Sudoeste do Maranhão. O perímetro de influência estende-se ainda ao Triângulo Mineiro e à paulista Ribeirão Preto. Mais próximas, as cidades de Paracatu e João Pinheiro viraram rotas de investimento.

A profecia de que Brasília promoveria a interiorização do desenvolvimento brasileiro, como tantas vezes se reiterou na época de sua fundação, cumpriu-se. Outros acreditam que o agronegócio teria se expandido de qualquer modo, até pela demanda irresistível do mercado internacional por commodities agrícolas que o Brasil pode produzir em abundancia. Mas em que velocidade esse trem teria chegado à estação? E as intempéries que cruzariam o caminho pelo interior de uma nação ausente de dois terços de seu território?

Sicsú tem algumas dessas respostas. A começar pela estimativa de que sem Brasília, as regiões mencionadas teriam levado pelo menos 40 anos a mais para atingir o estágio em que se encontram atualmente. As áreas que se tornaram pólos de plantio de soja e milho, e também passaram a abrigar grandes rebanhos bovinos, respondem agora por cerca de 15% a 20% da economia brasileira, pelos seus cálculos. Antes da construção da capital, mal alcançavam 1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Um novo mapa econômico e político do país foi desenhado a partir da explosão da atividade agropecuária no cerrado.

O que JK e os pioneiros que o acompanhavam não profetizaram é que o mapa restrito da Brasília inaugural, planejada para ter 500 mil habitantes na altura do ano 2000, seria expandido rapidamente e chegaria, apenas dez anos adiante, a abranger 2,6 milhões de pessoas em todo o Distrito Federal.

Adicionados os moradores das 22 cidades de Goiás e Minas que formam a Rede Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE), pode-se contar com pelo menos mais de 1,1 milhão de habitantes – uma soma de quase quatro milhões de almas. Alongaram-se os braços das primeiras cidades-satélites, o fluxo intenso de imigrantes adensou a população de Brasília e suas cercanias. Em 2030, somente o Distrito Federal deverá abrigar cerca de 3,1 milhões de habitantes.

Levante-se o olhar um pouco mais ao longe e se poderá ver Brasília solidamente instalada pelo IBGE na condição de terceira metrópole nacional, apenas um passo atrás das quinhentistas São Paulo e Rio quando se trata de avaliar a importância e influência no restante do país. São critérios técnicos variados, desde a gestão empresarial e presença de órgãos públicos federais, até a oferta de serviços financeiros, a existência de instituições de ensino, acesso à internet, conexões aéreas, serviços de saúde, presença de rede de televisão e jornais. Brasília irradia mais diretamente sua influência por uma área de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, inferior apenas à capital paulista, a grande metrópole nacional.

De cima, quando os aviões começam a descer para pousar no movimentado Aeroporto JK, é possível visualizar essa ocupação que se estende pela paisagem plana, quase sem ondulações: os campos cultivados geometricamente, as habitações que vão pontilhando cada vez mais o espaço na medida em que se aproxima a cidade, desenhada, em sua origem, no meio do nada. Também se pode observar, do alto, a seqüência dos retângulos de águas azuis das piscinas que enfeitam as residências abastadas da região do Lago Sul, próxima ao aeroporto. Mais adiante, sob os reflexos da luminosidade ofuscante do cerrado, despontam os novos arranha-céus. Antes tão escassos, marcaram agora um território próprio, espetados na moldura horizontal e espaçosa da capital.

Ajuste-se o foco e será possível enxergar os pormenores dessa mancha urbana em acelerada e desigual expansão. A metade da população é dali mesmo, precisamente 48,92% nasceram no Distrito Federal – no Plano ou fora dele, mas ainda dentro do recorte de terras extraídas de Goiás. Plano é a expressão abreviada de se referir ao Plano Piloto, a alcunha tecnocrata que ficou como herança dos tempos em que a cidade era projetada nas pranchetas. Ali estão os símbolos maiores da capital: o Congresso, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o poder central.

Fora dali, é o universo das cidades-satélites, que muitos preferem designar hoje como bairros de uma mesma metrópole. Ou cidades, com vida e identidade próprias. No jargão burocrático, são meras regiões administrativas. Ainda pouco afeitos a essa linguagem codificada, os forasteiros, que eram ampla maioria nos idos de 1960 e 1970, continuam a chegar. Agora, menos instalados pelas benesses populistas do ex-governador Joaquim Roriz e mais pelos motivos de sempre, para lutar por emprego e melhores condições de vida.

O retrato dessa população que emerge dos dados oficiais é impressionante. A renda média mensal é de R$ 2.117,00, mais do que o dobro da nacional, de acordo com os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. Pelo critério de renda per capita, o mesmo instituto aponta Brasília no patamar de R$ 34.510,00, enquanto a média brasileira não passa de R$ 8.380,00. Escolha-se qualquer outro parâmetro de prosperidade ou bem-estar e a capital também estará no topo.

Os brasilienses ocupam o primeiro lugar no ranking de residências com computadores (48,8%), com acesso à internet (29,7%), com telefone (94,1%) ou celulares (135/100). Nada menos do que 99,8% das residências são providas de energia elétrica e 96% contam com saneamento básico.

Transforme-se Brasília em país e o seu nível de 0,936 de IDH, ou seja, Índice de Desenvolvimento Humano, medido pelas Nações Unidas, estará ombreado com o da Alemanha e superior ao de Portugal.

Essa exuberância estatística, no entanto, perde o brilho quando se observa o Distrito Federal sob a ótica da distribuição de renda. O dado mais confiável para se avaliar esse desequilíbrio é o chamado coeficiente de Gini, que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, mais profundo será o quadro de desigualdade. Brasília aparece, por essa medição, com um índice de 0,62, muito pior do que o indicador válido para todo o Brasil, que é de 0,53, de acordo com dados de 2008.

Os economistas gostam de contar, como se fosse a última novidade, uma piada velha e desgastada sobre o significado dos índices montados para calcular médias. A receita é colocar alguém com a cabeça dentro do forno e as pernas na geladeira para se obter, em média, um indivíduo com temperatura normal. Numa ponta de Brasília, encontram-se os rendimentos mais altos, os empregos públicos bem remunerados, as moradias confortáveis. Na outra, em áreas ainda abrangidas pelo Distrito Federal, os aglomerados urbanos mal cuidados e populosos. Em volta, sinais de completa indigência.

 

No topo desta pirâmide, a renda média mensal dos moradores do Lago Sul alcançava 10,4 salários mínimos, em 2004, de acordo com a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílio (PDAD). Na base, os habitantes das áreas mais pobres, como Estrutural e Itapoã, não conseguiam atingir sequer o menor salário vigente no país – o valor apurado para a renda média mensal equivalia a 0,4 salário mínimo. Se pudesse voltar na altura do cinqüentenário da cidade que fundou, Juscelino Kubitschek se espantaria, assegura Ronaldo Costa Couto, com o cinturão de pobreza formado em torno da capital.

É verdade que se formou também um sólido grupo de renda intermediária nas cidades-satélites mais bem estruturadas e tradicionais, e no próprio Plano. Assim como um movimento febril de assentamento de condomínios de classe média, muitos situados de forma ilegal em terrenos públicos, cuidou de acomodar os que seriam expulsos para regiões mais distantes do centro da capital. Nem todos resistiram. Nada menos do que 30% dos habitantes de áreas periféricas do Distrito Federal já moraram no núcleo central de Brasília, aquele que abrange as Asas Sul e Norte, o Setor Militar Urbano – mais um dos códigos exóticos da capital – e três vilas tradicionais.

Os mapas demográficos, sociais e econômicos do Distrito Federal estão esquadrinhados de forma criteriosa e confiável nas publicações técnicas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Sim, é a sigla que batiza a CPI sobre o desvio de recursos públicos no governo local em favor de empresas privadas e lideranças políticas. A Codeplan foi tomada de assalto por dirigentes obscuros, nomeados com o propósito deliberado de usar o órgão como balcão de negócios. Mas bem poderia simbolizar os setores governamentais de excelência técnica que existem em abundância na capital da República – pouco percebidos e valorizados, em meio às incessantes marés de denúncias de irregularidades que varrem os gabinetes oficiais.

No laboratório da cidade planejada, marcada pelo preconceito e pela rejeição de boa parte dos brasileiros, alguma coisa está ainda mais fora da ordem: faltam empregos e moradias para acomodar a ascensão meteórica de sua população. Os índices de desemprego nas áreas menos favorecidas do Distrito Federal chegam a atingir 19% da População Economicamente Ativa (PEA). No Plano, onde estão os grupos de renda mais elevada, não passam de 7,5% e chegaram a cair em pleno furacão da crise econômica histórica do final de 2008, que subtraiu vagas no mercado de trabalho do restante do país. As áreas de Brasília preservadas das marchas e contramarchas dos ciclos da iniciativa privada ficaram a salvo da intempérie.

É inegável que os imigrantes atraídos pelas luzes da capital, os símbolos que aparecem no noticiário dos telejornais, os serviços médicos estruturados ou o acesso à educação de qualidade encontraram no Planalto Central do Brasil melhores condições do que tinham na terra natal. A tarefa urgente é gerar mais empregos, preocupa-se o economista Jandir de Moraes Feitosa Júnior, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pois se aproxima o tempo da colheita ainda mais abundante de populações marginalizadas e imersas no ambiente de violência e degradação, sinais que já pontuam o cenário de maquete da capital.

Mais do que apenas empregos públicos, ele alerta, é crucial apostar também em postos de trabalho na iniciativa privada, estimular o ânimo de empreendedores capazes de dotar a região do dinamismo necessário para construir um futuro de oportunidades semelhantes às que sedimentaram o seu passado. Restam poucas dúvidas de que o período mais expressivo de expansão do setor público em Brasília, que resultou da ampliação de gastos e de novas contratações de pessoal, pode estar próximo do esgotamento – ou pelo menos refluir seu ritmo de forma significativa em cenário próximo. Na virada dos 50 anos, a cidade precisará girar outras engrenagens para manter a higidez econômica e social.

Do ponto de vista técnico, existem caminhos para que isso aconteça. Afinal, Brasília lidera o ranking nacional que mede as condições favoráveis à realização de negócios, elaborado com base em dados do Banco Mundial.

A classificação leva em conta o tempo e o custo de abertura de empresas, o registro de propriedades e garantias, o nível da carga tributária local e os procedimentos para o recolhimento de tributos. O Governo do Distrito Federal contabiliza hoje cerca de 170 mil empresas na região, que ainda tem uma clara predominância da administração pública, responsável por 54,80% do PIB local, estimado em R$ 100 bilhões.

Para uma cidade concebida com o objetivo declarado de manter a distância as indústrias que poluiriam seus ares e águas, e que também poderiam transportar para o ambiente asséptico dos gabinetes governamentais legiões de operários indesejados e vociferantes, a atividade industrial dá poucos sinais de vitalidade. Em 2007, a indústria não representava mais do que 6,55% do seu PIB, um nível que vem se mantendo com poucas oscilações nos últimos anos. A denominação de “metrópole terciária” cai como uma luva em Brasília.

É preciso muito mais do que isso para alicerçar o desenvolvimento e garantir a geração de novos empregos. Jandir de Moraes critica a interdição que ainda hoje afasta da cidade indústrias consideradas poluentes.

Para abrigá-las, emenda Benjamin Sicsú, bastaria impor-lhes o tratamento adequado aos rejeitos e processos produtivos. Sem a diversificação de um parque industrial mais completo, a economia local ainda depende muito do segmento da construção civil, cuja trajetória está entrelaçada à história da capital, embora continue movida maciçamente por produtos importados de outras regiões do país.

O cenário da construção em Brasília mostra uma busca sôfrega por áreas habitacionais. Elas costumam surgir no compasso de uma indústria imobiliária azeitada e bilionária, que teve seu principal representante comodamente instalado no Executivo: o ex-vice-governador Paulo Octávio, que controla boa parte dos terrenos disponíveis para novas edificações na capital. Ele ocupou por muito tempo posição estratégica e decisiva no governo de uma cidade em que as regras de ocupação do solo são estritamente definidas pelo poder público. Ou seja, um claro conflito ético, para dizer o mínimo. Os interesses onipresentes de seu grupo empresarial em áreas diversas como hotelaria, comunicação, concessionárias de veículos e centros comerciais o tornaram um vice-rei na capital do país, em pleno século 21.

Os meses a fio em que os porões da corrupção no Distrito Federal desfilaram diante da sociedade comprovaram, de forma eloqüente, que o ambiente de negócios da cidade está contaminado de forma profunda e dramática por práticas ilegais de toda ordem. Obras de infraestrutura foram direcionadas para beneficiar empreendimentos privados, restrições ambientais acabaram derrubadas a golpes de propina na Câmara Legislativa, licitações terminaram solenemente burladas. O planejamento urbano do Distrito Federal, como ficou nítido nessa coreografia de sombras, florescia muito mais nos escritórios particulares das incorporadoras de imóveis do que nas pranchetas de especialistas do setor público – prática disseminada, aliás, em muitos pontos do país.

As ondas que o mercado imobiliário consegue criar, com seu arsenal de recursos, podem ser surfadas por poucos quando se trata das áreas nobres do Plano Piloto, inflacionadas pela demanda que não para de crescer. Já esteve do lado Sudoeste e mais recentemente atinge o Setor Noroeste, que é alvo de propagandas idílicas para atrair compradores, com a promessa sonora de que se trata do “primeiro bairro ecológico do Brasil”. A contradição é apontada pelo geógrafo Aldo Paviani, um respeitado estudioso da realidade local, que lamenta o modelo de urbanização que vai dilapidar nichos preciosos de cerrado nativo e sufocar três nascentes. “Quando se tira a vegetação acaba a água”, ensina.

O futuro sustentável dessa potência econômica que foi semeada no Planalto Central passa por um debate que comporta angústia e inquietações, mas que também desperta sonhos e ainda pode inspirar otimismo. Nesse caminho, os olhos dos administradores locais terão que estar voltados muito menos para a Esplanada dos Ministérios e mais para as áreas distantes do Plano Piloto. São os locais que abrigam grandes contingentes de mão de obra excedente, ansiosa por oportunidades que o antigo Eldorado costumava oferecer em profusão.

Para seguir em frente, a cidade dificilmente poderá prescindir de uma gestão pública que estimule a integração das diversas áreas do Distrito Federal e torne efetiva a articulação com municípios vizinhos de Goiás e Minas, esboçada apenas no papel. Será necessário também depurar a capital e suas ramificações das influências nocivas que subordinam projetos públicos de interesses privados escusos. Assim como parece crucial vencer a resistência que a cultura forjada nas entranhas do Estado nutre contra a iniciativa privada, justamente para agregá-la ao esforço de gerar renda e emprego.

Idéias existem, dentro e fora do governo, como a construção da chamada cidade digital, que pretende colocar de pé um centro tecnológico destinado a criar empregos qualificados e transformar a capital em rota de produção de alta tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma vocação que parece natural para o grande centro de decisões do país, que se consolidou ao longo de 50 anos. Os serviços de informação já respondem por 3,9% do PIB do Distrito Federal e nada menos do que seis entre as dez principais empresas brasileiras desse setor estão instaladas em Brasília.

Outra vertente é a cidade aeroportuária, ainda embrionária nas pranchetas oficiais, mas que poderia estabelecer conexões no transporte de cargas de valor agregado para a região geoeconômica do Brasil Central, aprimorando uma vocação de entroncamento viário e logístico que remonta aos ideais dos fundadores da capital. Nesse projeto, Brasília tem condições de se valer da posição privilegiada que ocupa entre os centros dinâmicos do agronegócio brasileiro, cujo destino foi gestado em boa parte por sua própria existência.

Mesmo nos circuitos tradicionais do poder é possível vislumbrar perspectivas para alicerçar o futuro da cidade e de seus habitantes. A grande consultoria de 300 mil funcionários públicos, lançando-se mão da definição curiosa de Sicsú para nomear o conjunto de tomadores de decisão do governo, envolve gente especializada e ligações com o país e o mundo. É um dínamo que fomenta também escritórios de representação, alimenta a rede de hotelaria, infla o pólo de gastronomia, que já é o terceiro do Brasil, e multiplica novas rotas de transporte.

Os exercícios que tratam dos horizontes da capital combinam com sua natureza aberta e personalidade múltipla, receptiva e arroubos de imaginação e a ventos inovadores. As características desse perfil mutante podem ser valiosas para enfrentar as complexas adversidades que se insinuam em sua curta história. A usina se move e guarda promessas e desafios.

Transcrito do livro “Brasília aos 50 anos: que cidade é essa?”

 

 
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