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04 de Março de 2010

Esta cidade
 
Esta cidade sem praças tem
nos bares suas praças:
novos e antigos amigos
tornam mais leve habitá-la.
Teimamos em rasurar
com nossa presença pobre
sua geometria exata.
Talvez tenha sido feita
pra pessoas melhores.
Meio ave (duas asas),
avara, magra de esquinas
(no que parece mais sábia),
ainda jovem, bonita
(fria beleza de máquina),
nos convida a praticá-la,
torná-la cômoda, nossa,
feito só o sabem ser
as roupas velhas, usadas.
 
Seus espaços de filme
de ficção científica
podem fazer-se jardins
onde se plante política.
Mas de outra espécie, a política
que, de repente, desata:
não a dos gabinetes,
das salas – mesmo as plenárias
(as propinas, as chantagens),
lugares onde, fechadas,
as coisas degenerassem;
a política das praças
públicas, das ruas,
dos grandes claros
e marchas.
 
Esta cidade vazia
que, sob o céu redondo,
ferve nos bares,
eventualmente nas casas e,
sempre,
na sua rodoviária
(onde a rotina prosaica
mistura muito milhares),
insinua,
mais,
ameaça revelar
sua veia democrata:
quando os desertos, imensos,
aparentemente a postos
para evitar se reúnam
e articulem as massas,
já não separem, tomados
por esses mesmos milhares
- homens, mulheres
- à luta de boas causas
que, nesse instante, são óbvias;
já não separem, mas saibam
abrigar em seus espaços
todos – e tão distintos
já nos vemos uns dos outros
no que, reza a utopia,
poderá chamar-se
frátria
(1986)

 
Fernando Marques, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

 
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