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04 de Março de 2010

EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA
 
Em Brasília na rodoviária
Encosto-me à lanchonete sob a chuva tropical
Os homens e as mulheres
Ocupam lugares no ônibus
Cinzentos
Violáceos
E
Amarelos
E recuperam nos seus rostos cansados
A cor do seu transporte colectivo
 
Por entre ônibus putas e travestis
Movem-se como pássaros de aviário
Protegidos do dilúvio pelo viaduto dos eixinhos
Trespassado por velocíssimos automóveis
 
Há relâmpagos vindos de todas as direcções
Que se sobrepõem aos dos olhares dos transeuntes
Reflectidos nas imensas poças
Construídas com a água
Empurrada pelo vento
E pelos esgotos entupidos
Da via Monumental.
Todos aqueles caminhos levam a qualquer lugar
A tantos e todos os lugares que o sonho se torna
Desprezivelmente desnecessário
Ao meu lado uma mulher jovem bebe um guaraná
E um policial militar devora literalmente um
Bolinho de bacalhau junto ao ponto para Taguatinga
Abrandou a tempestade
A chuva cai agora lenta e oblíqua
Atravesso a Esplanada dos Ministérios
Vergado ao peso do silêncio
 
Acolho-me ao espaço anterior
À terra vermelha
Niemeyer cavalga um Pégaso
Ao longe sobre o lago
 
Ardem-me os olhos o braço tenso segura o estandarte
A terra move-se
Milhares de candangos avançam em malha
Compacta pela W3
Colocando nas palavras a estrutura da esperança
 
Inesperadamente uma superquadra nasce
No extremo da Asa Norte na direcção contrária
À chuva
Foi quando Lucio Costa
Encostado ao semáforo experimental
Do Parque da Cidade
Decidiu não haver nascido.
 
Rui Rasquilho
Poema transcrito do livro “25 Poemas brasileiros & Uma saga lusitana”
Editora Thesaurus, 1997

 

 
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Brasília Poética 2007