Casas Populares
Diria, cogumelos como filas
ou um exército de casas rudes
onde luta o homem com seu garfo
e sexo na planície: cama e mesa.
Assim as paredes se dividem, se dividem
as vidas no limite tênue dos terreiros
e os mil vizinhos se entreolham e se devoram
em picuinhas, namoricos e agressões.
Affonso Romano de Sant’Anna, poeta mineiro, natural de Belo Horizonte.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
E o ipê comemorou
02 de Setembro de 2010
E o ipê comemorou
Pegou fogo, ardeu alto
Usual na Capital seca.
Labaredas enegreceram o chão.
O ipê, altaneiro, escapou ileso
E comemorou:
- Minhas flores contrastarei com esse véu negro!
Passava eu, atrasado
Inaugurando um brinquedo
E TIVE que registrar!
Luciano Brasil, poeta brasiliense
Sou de Santos
26 de Agosto de 2010
Sou de Santos
(Depois de ler "Where a Poet's From", de
Archibald McLeish.)
Nasci perto do mar
como Ribeiro Couto
Como ele, cantei
o cais de Paquetá,
cheio de marinheiros,
estrangeiros,
aventureiros.
Apitos roucos de navios
me atraíram para outras terras,
propostas sedutoras.
Corri mundo.
Vim parar no Planalto Central
onde, solitário, entre livros,
contemplo os últimos anos.
Às vezes, à noite,
me encaminho para o lado do Eixo
e me detenho ante os terrenos baldios
(amplidão!) da Asa Sul.
Ao longe,
os guindastes das construções
sugerem um cenário de cais.
E o vento me traz com o cheiro do sal
o inútil apelo do mar.
Cassiano Nunes, poeta natural de Santos (SP).
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.
Espera
19 de Agosto de 2010
Espera
O amor que eu tinha
era feito de néon calidoscópio
e me fazia feliz
como o painel de anúncios
do Conjunto Nacional.
Respirava a cidade
molhada de chuva.
Meu amor
estava refletido
em semáforos e asfaltos.
Um dia gravou um videoclipe
onde o seu perfil azul
virava águia,
voava do penhasco.
(Meu amor televisivo).
A tarde era o ângelus,
eu presa na moldura da sala
ele viajando no metrô
que ainda não fora construído.
Eu toda fé e solidão.
Não passou pela rua da minha janela.
Se extinguiu, se exauriu.
Amanhã nasce de novo.
Maria da Glória Lima Barbosa, poetisa baiana, natural de Camaçari.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
CENAS DE UMA CINQUENTONA
12 de Agosto de 2010
CENAS DE UMA CINQUENTONA
Brasiliense qualquer: Moço, fui ao banco lá no Paranoá
e disseram que meu benefício não consta no sistema
para pagamento do INSS.
Atendente: Minha senhora, eles devem ter errado. Volte lá.
Brasiliense qualquer: Meu senhor, eles não erraram.
Está vendo o carimbo do gerente aqui, ó. Está escrito:
benefício não encontrado.
Atendente: Minha senhora, então ainda não foi pago!
Brasiliense qualquer: Meu senhor, vocês enviaram um
documento oficial para minha casa informando a data
de pagamento do benefício. Foi liberado dois dias atrás!
Olhe aqui o papel de vocês.
Atendente: Então, me deixe ver no sistema.
(digita no computador)
Brasiliense qualquer: Ok.
Atendente: Foi liberado sim. O pagamento está nesta
agência do Banco do Brasil na Asa Sul.
Brasiliense qualquer: Meu senhor, eu vim aqui ontem para
me certificar de que o banco certo era o Itaú do Paranoá,
lembra? Estranhei a informação, pois é muito longe da
minha casa. E agora o senhor, que ontem confirmou o endereço,
me diz que o banco certo fica na Asa Sul?
Atendente: A senhora foi ao banco errado, foi isso.
Brasiliense qualquer (gritando): Mas qual a razão do erro?
Atendente (olha para o segurança): Minha senhora, deixe
disso. Vá ao banco e receba seu benefício direitinho, viu?
Liziane Guazina, poetisa gaúcha. http://entrefacas.blogspot.com
transcrito do livro “50 anos em seis”, Teixeira: gráfica e editora
Lá no morro
03 de Agosto de 2010
Lá no morro
(...) Comunidade unida é um pote de ouro
Vou lá no morro
De Ceilândia a Planaltina, é frevo de novo
“92 cor de sangue”, “pá”, uns banco de couro
Com os olhos vermelhos igual a nota da escola
E quem entende assim, eu quero ser assim
Calça de lim não é pra mim
Bem pior do que aparenta
Eu sei o que meu boné representa
Tudonosso, tudo bem
No morro o samba trinca
E o céu brilha também (...)
Rapper Japão
Brasília, quem és?
22 de Julho de 2010
Brasília, quem és?
Brasília, quem és?
Muitos, que só te conhecem de nome,
Chamam-te de paraíso da corrupção
Outros, que te conhecem de perto,
Por ti têm paixão
Eu, que te habitei por algum tempo
Me apaixonei
Por sua estrutura
Por sua cultura
Por sua gente plural
Mas acima de tudo
És acolhedora
Das oportunidades
De construir uma vida melhor
De fazer, e rever, amigos leais
Hoje, distante, sinto tua falta
E volto a te visitar, sempre que posso
Para rever esse céu tão azul
As noites de lua imensa no céu
Dos relâmpagos ao longe
Do seu traçado
Das suas coordenadas
Tesouras e quadras
Zebrinhas e néons
do Conjunto Nacional
Da secura e da terra vermelha
Da grama do Eixo Monumental
Ora verde e viçosa,
Ora seca e vermelha,
Com suas contradições
Onde posso encontrar
Gente e coisas
De todo o Brasil
Salve, Brasília!
Salvemos Brasília!
Joaquim Reis.
Poema transcrito do Correio Braziliense, 25/04/2010
Engarrafada aos 50
05 de Julho de 2010
Engarrafada aos 50
Andando e cantando
Eu vou avistando
Os carros parando
Meu pé vai freando
Andando e parando
O tempo passando
O carro esquentando
Parei de cantar
Andando e parando
O tempo passando
O sol escaldando
Eu vou cozinhar
Andando e parando
O tempo passando
Motor barulhando
Só falta quebrar
Andando e parando
O tempo passando
O som estourando
No carro de lá
Andando e parando
O tempo passando
O chefe esperando
Eu ir trabalhar
Andando e parando
O tempo passando
As motos passando
Eu quero passar
Andando e parando
O tempo passando
A fila aumentando
Só falta andar
Andando e parando
O tempo passando
Polícia multando
Em todo lugar
Andando e parando
O tempo passando
Criança chorando
Também vou chorar
Andando e parando
O tempo passando
O mundo girando
Só eu que não ando.
Marcelo Corado, poeta brasiliense.
Subversiva
15 de Junho de 2010
Subversiva
A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país
Ferreira Gullar, poeta maranhense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense, 8/6/2010.
Brasília 5.0
18 de Maio de 2010
Brasília 5.0
A Capital da Esperança:
Tornou-se realidade...
De um sonho de Dom Bosco:
À grandiosa cidade...
Por JK construída:
Dia a dia nos invade...
Brasília surgiu a esmo?!:
Seu nome foi registrado...
Ano 1822:
Em artigo publicado...
Na Tipografia Rolandiana:
Por oculto deputado...
Brasília era nome corrente:
Bonifácio persistiu...
Propôs a nova capital:
Preconizou: Anteviu...
O lindo nome de Brasília:
Ele também sugeriu...
2 de outubro de 56:
JK aqui desceu...
Com Lott, Lúcio e Israel:
O Cerrado percorreu...
+ Ernesto, Nélson, Balbino:
O fato assim aconteceu...
JK com entusiasmo:
Veio ao Planalto Central...
Trouxe Régis e Oscar:
Adentrou-se ao matagal...
Onde é o Catetinho:
Raiz da nossa Capital...
Na primeira comitiva:
Veio Bernardo Sayão...
Governador Ludovico:
Deu apoio à construção...
E Altamiro Pacheco:
Teve participação...
Esteve lá no Cruzeiro:
Perto do Memorial...
Deixou a marca da luz:
No centro da Capital...
Café na Fazenda Gama:
À vontade no quintal...
Lucio Costa rabiscou:
Ave-cidade-avião...
Passarinho-borboletra:
Libélula em evolução...
Um vôo extraordinário:
No Planalto da Nação...
A cidade foi sonhada:
Profetas a visionaram...
Poetas a anteviram:
Muitos a preconizaram...
Juscelino a construiu:
‘Anjos’ a eternizaram...
Era um vale vastíssimo:
Torto, Gama, Bananal...
Vicente Pires: Riacho Fundo:
Bela Água Mineral...
Era o Sítio Castanho:
Hoje é nossa Capital...
Havia fazendas de gado:
No meio do Planalto Central...
Um descampado sem-fim:
Cerrado monumental...
Agora é uma Alvorada:
Nave do transcendental...
Nascente de três bacias:
No Altiplano da Nação...
Águas Emendadas:
São veias do coração...
As artérias de Brasília:
Devem ter preservação...
Gustavo Dourado
Sarau Sanitário
10 de Maio de 2010
Salve, salve calangada do bem!
Para fazer jus à proposta do projeto de popularização da Poesia, aí está o livro Sarau Sanitário.com disponível para leitura. Nas páginas a seguir há poemas sobre sustentabilidade, sobre cada signo do zodíaco, sexualidade, TPM, tecnologia. Há também poemas em homenagem a ícones como Frida Khalo, Glauber Rocha, Cora Coralina, Burle Marx, Tom Zé, entre outros mestres que inspiram a minha (e nossa) poesia.
...Lançamento do livro: 11 de maio no Balaio Café - 201 Norte...participação do Poeta Gog e de não-poetas ilustres da cidade declamando...será algo bem interessante...aguarde.
Para ver como ficou o livro, clique no link abaixo:
De novo caminharei pelo Eixo Rodoviário
contra a brisa do altiplano,
lá, onde o céu teve de alongar-se para tocar a terra.
O pulso está firme, ritmado. O corpo venceu a morte.
Por quantos dias, anos, só as Parcas
sabem e a ninguém o dizem.
Quisera voltar desoprimido, leve,
afastar meus espectros,
sem eximir-me,
pensão do homem,
a trabalhos, dores.
Alegria, minério raro!
Mas sei que logo me erguerei contra mim
serei meu pior inimigo
recriminatório, batendo os punhos no peito, carregado de
/culpas,
atormentado de não ser o que desejara.
Ó alma, tanta vez imaginariamente atribulada,
pudesses ao menos fruir com sabedoria a dilação que te ou-
/torgaram!
Cyro dos Anjos, poeta mineiro, natural de Montes Claros.
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira
CAMINHÃO DE MUDANÇA
26 de Abril de 2010
CAMINHÃO DE MUDANÇA
Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse estaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retrato olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.
...
Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundareú ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.
...
Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo ao seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.
Jessier Quirino, poeta paraibano.
Poema transcrito do livro “Berro novo”
Rap revela o lado B de uma Brasília fora dos telejornais
23 de Abril de 2010
O rapper Gog é a voz das cidades-satélites do Distrito Federal, onde o hip hop se mistura com os ritmos nordestinos da embolada e forró para contar a realidade que não é retratado nas notícias sobre a cidade. Neste vídeo, ele canta trechos de suas músicas "Brasília Periferia" e "Terceira Mensagem". Leia matéria completa clicando aqui e confira página especial sobre o aniversário da capital.
Fonte: UOL Mais
Balzaca Roquenrou
16 de Abril de 2010
Balzaca Roquenrou
Mulher com M maiúsculo?
Só após os trinta.
É quando se aprende que amor é para dois
E se for para um, que seja para si mesma
É quando a sensualidade não é só um decote
E um bom vinho combina com tudo
Quando não é preciso ser radical
Pois o inverno da insegurança
Morreu em sua trigésima primavera
Ser Balzaca ainda não é ser Loba
Mas já se sabe uivar para a lua
E despida de medos, de alma nua
Se enxerga pela primeira vez
E vê que não é mais uma menina
Mas pode sê-la quando quiser
Quem acha os trinta o fim, concordo
É o fim do treinamento, início de jogo
É o fim do querer ser, sendo de fato
Mulher de trinta não é escolhida, escolhe
E aprecia quem a sabe apreciar
E não a tente enganar
Ela lê a verdade em teu rosto
E não abre mão do gosto
Da beleza de saber se amar.
Balzaquiana luz
Iluminada mulher
Top model futurística
Que desfila esguia
Imponente
Prepotente,
Saltitante,
sobressaindo entre as satélites.
Exibida fêmea
que passeia ligeira
- nas entrequadras –
- nas entrelinhas –
- nos corredores do planalto –
de salto alto!
Êta, “mulher macho”
Poderosa matriarca
Risonha ditadora
de rosto prateado.
Mulher alada
Exibicionista das asas
onde TODOS estamos dependurados
- dominados –
por ela,
a cabeça que pensa
por TODOS
de Norte a Sul.
Onã Silva é poetisa goiana, natural de Posse.
Poema transcrito da antologia “Brasília: Vida em Poesia”, de Ronaldo Mousinho.
Entre o Conjunto Nacional e o Conic
23 de Março de 2010
Entre o Conjunto Nacional e o Conic
Pasce o gado humano entre o Conjunto Nacional e o Conic.
Passa gente de todo espectro: mendigos, operários,
burocratas tangidos pelo ruído agoniado dos carros.
Toda sorte de gente a passar na passarela,
no impasse ou na parcialidade em que a vida se transforma,
vida: matéria-prima do tempo, pasto de transitoriedade.
Nunca mais as mesmas pessoas passarão
e os que passam deixam rastros de nada.
Restam imagens, vultos, espectros entre dois mundos,
os pólos da cidade.
No desvão entre o Conjunto Nacional e o Conic,
os que vão sob a redoma celeste passam, passageiros do instante.
Passam deixando-me na retina o retrato do Brasil:
o sanfoneiro cego, a mulher de peitos balouçantes,
o aleijadinho desengonçado que se desvia dos transeuntes,
os vendedores de miudezas oferecendo mangas,
bonecos de pano, discos piratas.
O sujeito do boné tatuando a coxa de uma cabrocha.
O outro que lambe um picolé.
As miríades de coisas ínfimas espalhadas na calçada.
Tudo ao preço de um real.
“Melhore a sua imagem”, diz o que oferece antenas de televisão.
E outras vozes: “12 linhas, 13 agulhas,
refresco de catuaba, milho verde,
pastel, churrasquinho, calcinha, camisinha”, etc.
De repente, um grito...Olha o rapa!
a negrada arruma a trouxa e se desabala no rumo da Rodoviária.
O policial esgalgo urubuserva tudo,
especialmente as mulatas,
(as brasileiras partes tingidas de sol).
De Ceilândia, de Taguatinga, de Samambaia,
desfila um brasil de passo inconsciente,
que passivamente expõe etnias e castas
neste elo que conecta os extremos de Brasília.
Diante de mim os obeliscos do Legislativo,
a seqüência dos Ministérios simetricamente perfilados.
Diante de mim, em um minuto,
passam as duas mil caras do Brasil,
da casa grande à senzala, da favela ao shopping,
do latifúndio à sarjeta,
a cor morena denunciando as proezas do avó lusitano.
“Dá uma esmola fi-da-mãe de Deus”,
pede a mulher com o pequenino ao colo...
Com ar solene, a legião distribui minúsculos papéis
como se revelasse mistérios.
Márcio Catunda, poeta cearense, natural de Fortaleza.
Transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
Esta cidade
04 de Março de 2010
Esta cidade
Esta cidade sem praças tem
nos bares suas praças:
novos e antigos amigos
tornam mais leve habitá-la.
Teimamos em rasurar
com nossa presença pobre
sua geometria exata.
Talvez tenha sido feita
pra pessoas melhores.
Meio ave (duas asas),
avara, magra de esquinas
(no que parece mais sábia),
ainda jovem, bonita
(fria beleza de máquina),
nos convida a praticá-la,
torná-la cômoda, nossa,
feito só o sabem ser
as roupas velhas, usadas.
Seus espaços de filme
de ficção científica
podem fazer-se jardins
onde se plante política.
Mas de outra espécie, a política
que, de repente, desata:
não a dos gabinetes,
das salas – mesmo as plenárias
(as propinas, as chantagens),
lugares onde, fechadas,
as coisas degenerassem;
a política das praças
públicas, das ruas,
dos grandes claros
e marchas.
Esta cidade vazia
que, sob o céu redondo,
ferve nos bares,
eventualmente nas casas e,
sempre,
na sua rodoviária
(onde a rotina prosaica
mistura muito milhares),
insinua,
mais,
ameaça revelar
sua veia democrata:
quando os desertos, imensos,
aparentemente a postos
para evitar se reúnam
e articulem as massas,
já não separem, tomados
por esses mesmos milhares
- homens, mulheres
- à luta de boas causas
que, nesse instante, são óbvias;
já não separem, mas saibam
abrigar em seus espaços
todos – e tão distintos
já nos vemos uns dos outros
no que, reza a utopia,
poderá chamar-se
frátria
(1986)
Fernando Marques, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
Ninguém
07 de Fevereiro de 2010
Ninguém
para Donaldo Mello
Não há princípio nem fim
na eterna diáspora
dos astros
tresloucados
deslocando-se
aos confins
do universo
em expansão.
O tempo não existe
para as estrelas
mas elas fenecem
e, de vê-las, fico triste.
Sem sombra e destino, também vagarei.
Hei de seguir o mesmo curso de ninguém.
Antonio Miranda, poeta maranhense, criado no Rio de Janeiro.
Transcrito da antologia “Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”, de Salomão Sousa.
Ariosto Teixeira, o poeta que desafiou o medo
28 de Janeiro de 2010
Ariosto Teixeira,
O poeta que desafiou o medo
Paulo José Cunha
Raramente nos víamos. Mas quando nos encontrávamos havia uma certa cumplicidade, e nos olhos, ao nos cumprimentar, uma espécie de “nunca nos esquecemos um do outro embora nos vejamos tão pouco”. Sabia quase nada da vida dele. Só que era ótimo repórter. Juntos, nos iniciamos no jornalismo político, freqüentando o Comitê de Imprensa da Câmara. Sabia que cursara Ciência Política, tal a sua paixão “científica” pela área. Que gostava de caiaques. Principalmente sabia que era elegante, discreto, firme em suas convicções. E que sabia sorrir um riso tímido, reservado. Não me recordo da última vez que o vi às gargalhadas. Eram raras. Também nunca o vi triste, mesmo quando a doença já o devastava, e os sinais eram visíveis nas faces pálidas, encovadas. Mas os olhos – ah, os olhos do meu amigo! – sempre foram vivos, alegres e argutos. E sua voz tinha uma tranqüilidade e uma segurança que atordoavam, principalmente quando recitava.
Sim, porque meu amigo Ariosto Teixeira, nosso “Tchê”, era poeta, poetão, poetíssimo. Desses que, ao mesmo tempo em que dominam a língua como um domador a um potro selvagem, deixam a alma leve e livre para mergulhar pelos vales ou escalar as montanhas. Os mais próximos já conhecíamos a força de seu verso. Mas no primeiro Palavra Solta (atual Poesia da Lua), recital que reúne um grupo de poetas, e do qual Ariosto era um dos participantes, no Café Martinica, em Brasília, sentimos uma coisa diferente. Uma pancada. Foi quando ele, já bem magro, mas com voz segura e firme, subiu ao pequeno palco e calou o bar ao ler o seu magnífico O niilista medroso. Principalmente uma parte que diz:
“Você tem medo(...)
Medo de que Deus provavelmente não exista
De não haver outra vida
Você tem medo de ficar sozinho
Sem ninguém nem final feliz
(...)Você principalmente tem medo
Do que um dia vai fazer
Quando ao anoitecer
O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro”.
Sem medo, e discretamente, como era de seu feitio, o poeta partiu no último dia 23/01/2009, vítima de complicações hepáticas (era transplantado).
Dele ficou-me uma saudade doída, funda, íntima. Uma inveja danada de sua coragem, e a lembrança que me acompanhará para sempre de seu sorriso tímido e cúmplice. Se você só tem contato com a poesia de versinhos sorridentes, tipo coca-cola, prepare-se para tomar o seu primeiro porre de absinto. Leia em voz alta, na íntegra, o já citado O niilista medroso (www.blogdoturiba.blogspot.com). E conheça um poema-petardo inesquecível.
Um abração, Tchê! A gente se vê uma hora dessas.
Ariosto Teixeira recita no Poemação do Café Martinica
Transcrevo aqui o poema para facilitar a vida dos destinatários do e-mail.
Já os coleguinhas que quiserem publicar em jornais, poderão fazê-lo. E seus leitores poderão entrar no blog e ler o poema na íntegra, além de ter acesso a outros textos e poemas e a algumas notas biográficas de nossos Ariosto, cuidadosamente postadas pelo poeta Turiba.
O NIILISTA MEDROSO Ariosto Teixeira
Às vezes você se pergunta
Olhando o rosto no espelho
Se o reflexo é verdadeiro
Ou se a verdade é o corpo
Parado no meio do banheiro
Você acha que sabe bem o que é
Você acha que sabe bem o que quer
Você acha que sabe quem você é
Mas você sente medo
Medo de não ser você no espelho
Medo de ser mero reflexo
Do outro que consigo parece
Você não tem medo de sexo
Você gosta de sexo
Você sonha com sexo
Você procura fazer muito sexo
Sexo à distância
Sem beijo sem fluido
Higiênico e sem lirismo
Seguro como sexo com prostituta
Você de frente ela de costas
Ela por cima de costas
Você por baixo de costas deitado
É que você tem medo
Do ataque de um vírus complexo
Medo de gravidez
Medo de se apaixonar irremediavelmente
Medo de perder o controle
Medo de assumir o controle
Medo de que tudo enfim faça nexo
Você acende e apaga o cigarro
Com medo de pegar câncer de pulmão
Medo de apagar a luz
Medo de acender a luz
Medo de desligar o alarme
Medo de abrir o portão
Medo de ladrão policial pivete
Medo de colisão
De atropelamento
De ataque do coração
Medo de padre
Da certeza cristã absoluta
Da democracia liberal
Da esquerda latina
Medo da nova direita francesa
Medo do presidente americano
Medo da falta de medo do terrorista muçulmano
Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda
Medo da China capitalista
De milho transgênico
De buraco negro
De carne vermelha
Medo da falta de limite da física quântica
Do aquecimento global
Da inteligência artificial
De velocidade acima do permitido
De remédio de quinta geração
Da globalização
Do fim da globalização
Da falta de sentido
Medo de que Deus provavelmente não exista
De não haver outra vida
Você tem medo de ficar sozinho
Sem ninguém nem final feliz
Ah mas você confia no amor
O terno e doce amor
Do homem pela mulher
Do homem por outro homem
Da mulher por outra mulher
Do homem pelos animais
Da humanidade pela natureza
Você confia no amor das criancinhas
Você pensa nessas coisas
E por um instante
Acha que nada está perdido
Que o amor salvará o mundo
O amor romântico como no cinema
Como em um soneto de Shakespeare
Apesar da podridão no reino terrestre
Mas quanto tempo dura o amor
Antes de se dissolver em tédio
15 minutos uma tarde inteira uma noitada?
Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente
Mas é impossível ser de outro modo
É preciso agarrar-se a algo
Não ter medo de que o vazio
Tenha se espalhado em todos os quadrantes
O fato indiscutível é que você tem medo
Medo muito medo
De ficar vivo durante o inverno nuclear
Você principalmente tem medo
Do que um dia vai fazer
Quando ao anoitecer
O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro
bem, o sr.
25 de Janeiro de 2010
bem, o sr.
já nos mostrou
os blocos, as quadras,
os palácios, os eixos,
os monumentos...
será que dava pro sr.
nos mostrar a cidade
propriamente dita?
Nicolas Behr, poeta mato-grossense, nasceu em Cuiabá.
Poema transcrito do livro “Poesília, poesia pau-brasília”
Brasília
20 de Janeiro de 2010
Brasília
passo eixos
cruzo esplanadas
sou planalto
e sempre reto
desfaço
passo eixos
cruzo esplanadas
sou asfalto
e sempre cego
amasso
passo eixos
cruzo esplanadas
sou elipse
e sempre seta
esfumaço
passo eixos
e sempre
cruzo esplanadas
Post Gustavo Footloose, poeta brasiliense.
MINHA TERRA
11 de Janeiro de 2010
MINHA TERRA
minha terra tem cerrado
e os encantos do lago paranoá
o silêncio me faz ilha
o amor faz brasa queimar
carona pego em tuas asas
saio dos eixos e mando o pardal tomar naquele lugar
planejo pilotar minhas vontades
o outro não é satélite para o meu governar
minha terra não sabe a força que tem
capital do encontro desencontro vintém
nos palácios não me sinto rei
quero a catedral além do amém
minha terra tem esquina
quando o amor não termina em pizza
mas acaba em samba
ressuscitando o campo da esperança
minha terra tem rock na veia
balança jotakaiser em seu castelo de areia
quem manda ver no palco
é a galera da plebe inteira
minha terra é uma legião
que nasceu com o poder
somos filhos da revolução
quando abraçamos o saber
Post Marcos Fabrício Lopes da Silva, poeta brasiliense.
Brasília
03 de Janeiro de 2010
Brasília
Num pouso suave, a bela capital
aterrissou no Planalto Central
aqui, esquina não há
mas, se houvesse
talvez não coubesse
caras pintadas, diretas já, lulas lá.
Pássaro gigante
de asas abertas, a todos acolhe
em tua Esplanada
desfilam diferentes ideologias,
utopias, não importa
aqui, a todos é permitido sonhar.
Hoje jovem senhora
mais bela que outrora
Asa Norte, Asa Sul
compartilham teu céu azul
em teus blocos há vidas
entre calçadas muitas flores
e candangos que por ti morrem de amores.
Post Carmem de Melo, poetisa natural de Três Rios, RJ.
CRETA: LUZ COSTA PEDRA
21 de Dezembro de 2009
CRETA: LUZ COSTA PEDRA
esse mundo quadrado
foi riscado por um homem
que tinha luz no nome
minha rua não tem nome
não tem rua a minha rua
mas todas as vidas ligadas
pelo mesmo fio desse homem
que unia uma via sem nome à outra
esse labirinto reto e exato
só pode ter sido riscado
pelo Minotauro metade homem
metade boi de luz no nome
andarilho e andante
o Minotauro procura nas placas
entre todos os nomes
entre todos os homens
a saída
esse mundo quadrado cercado
de curvas por todos os lados
habitado por nuvens e lagos
foi arriscado pelo sonho
de um homem desenhado
metade boi metade urbanista
ele ainda procura uma saída...
Augusto Rodrigues, poeta goiano.
Poema transcrito do livro “Niemar”, Editora Vieira.
Por amor
30 de Novembro de 2009
Por amor
Depois que brigamos,
apanhou o travesseiro e foi para o quarto.
Solitário no sofá, ouvia seu soluço sufocado,
mas, não queria ceder.
Em forma de cuia,
aparei a água da torneira na mão,
lavei o rosto.
Tive medo que voltasse... não voltou.
Quando o soluço cessou, quis vê-la,
mas, meu orgulho impediu;
sugeriu que ficasse...
Fiquei.
Dedilhei meus dedos sobre minha cabeça,
me fiz cafuné.
Implorava ao sono que viesse...
Não veio.
Tangi meu orgulho, fui vê-la.
Mal coberta e esparramada sobre a cama...
a cobri com carinho;
os caminhos das lágrimas sobre seu rosto
eram visíveis.
Assentei-me à beira da cama, quis beijá-la,
não tive coragem.
A luz que vinha pela janela refletia
na base que cobria suas unhas. Seu braço caído
à borda da cama, esquecido...
em sonhos distantes, me faziam ciúmes.
Com saudade recuei, de costas.
Solitário no sofá, deixei que
minhas lágrimas corressem livres pelo rosto,
embebendo o travesseiro.
Ah, o amor!
O amor passivo e sereno,
também me fez adormecer, e chorou,
quando viu dois corações
cheios de orgulho, calaram-se.
André Gomes de Moraes Neto, poeta brasiliense.
Transcrito do livro “Por Amor”
Brasília Nave-mãe
20 de Novembro de 2009
Brasília Nave-mãe
Brasília é cidade futurista
É a nave mãe do Brasil
O lar dos urbanistas
O varonil do Brasil
Brasília é o lar da esperança
O paraíso da beleza
O lugar das mudanças
O complexo de grandeza
Brasília representa simplicidade
O respeito e a natureza
Mas ao mesmo tempo a qualidade
E a imensa beleza!
Théo Crisóstomo Nogueira, 10 anos, morador da Asa Norte, aluno da 4ª. série do ensino fundamental
Transcrito da coletânea “Projeto Novos Escritores”, Sindifraf.
VOCÊ
16 de Novembro de 2009
VOCÊ
Você é uma grande estrela
que canta, encanta
e abraça sorrindo
todos que vão chegando
é o consolo do povo
sofrido
traído
desiludido
você dá ao mundo uma história
tem força e soberania
transforma em realidades
sonhos desenhados
ao povo dá mensagem
de nobreza
aspirações
beleza
esperança
e cidadania
você é uma heroína
que nasceu bem depois de mim
e me ensinou que no meu íntimo
há um sentimento melhor
e uma força maior
do Poder Infinito
você é Brasília.
Divina Maria Corrêa, poetisa mineira, natural de Lagamar.
Poema transcrito da antologia “Brasília: vida em poesia – 36 anos/poetas escolhidos” de Ronaldo Alves Mousinho
Poemas de Toque
13 de Novembro de 2009
Poemas de Toque
II
scls
duzentos e tal
: o sol
pendurado num varal
amanhece
III
imensa solidão
: o lago paranoou-se
em meu coração
IV
dourada a luz
verão das seis
: calda esparramada
pela W-3
V
agosto ensandece
: vago pela sqs
ensoldecido
VI
cento e seis sul
às seis
: à beira do eixo
meu coração
talvez
Nelson de Carvalho, poeta natural de Piquete, São Paulo.
Poema transcrito “Deste Planalto Central – Poetas de Brasília”, de Salomão Sousa.
A arte do encontro
29 de Outubro de 2009
Sonho divinal o mais precioso cristal
21 de Outubro de 2009
Sonho divinal o mais precioso cristal Post de Luis Turiba
DÁDIVAS O CRIADOR CONCEDEU
FEZ BROTAR NUM SONHO DIVINAL O MAIS PRECIOSO CRISTAL
LÁGRIMAS, FASCINANTE FOI A IRA DE TUPÃ
DIZ A LENDA QUE O MITO GOYÁS NASCEU
O BRILHO EM JACI VEM DO OLHAR
PRA SEMPRE REFLETIDO EM SUAS ÁGUAS
A FORÇA QUE FLUIU DESSE AMOR É PARANOÁ... PARANOÁ
ÓH! DEUS SOL EM SUA DEVOÇÃO
ERGUEU-SE NO EGITO FONTE DE INSPIRAÇÃO
PÁSSARO SAGRADO VOA NO INFINITO AZUL
ABRE AS ASAS BORDANDO O CERRADO DE NORTE A SUL
AH! TERRA TÃO RICA É O SERTÃO
RASGA O CORAÇÃO DA MATA DESBRAVADOR!
FINCA A BANDEIRA NESSE CHÃO
PRA DESABROCHAR A LINDA FLOR
NO CORAÇÃO DO BRASIL, O AFÃ DE QUEM VIU UM NOVO AMANHÃ
REVOLTA, INSURREIÇÕES, COROAS E BRASÕES
BATISMO NUM CLAMOR DE LIBERDADE!
SEGUE A MISSÃO A CARAVANA EM JORNADA
ENFIM A NATUREZA EM SUA ESSÊNCIA REVELADA
FIRMANDO O DESEJO DE REALIZAR
A FLOR DESABROCHOU NAS MÃOS DE JK
A MISCIGENAÇÃO SE FEZ RAIZ
COM SANGUE E O SUOR DESTE PAÍS
VEM VER... A ARTE DO MESTRE NUM TRAÇO UM POEMA
NOSSA CAPITAL VEM VER ...
LEGIÃO DE ARTISTAS, CALDEIRÃO CULTURAL!
ORGULHO, PATRIMÔNIO MUNDIAL
SOU CANDANGO, CALANGO E BEIJA-FLOR!
TRAÇANDO O DESTINO AINDA CRIANÇA
A LUZ DA ALVORADA ANUNCIA!
BRASÍLIA CAPITAL DA ESPERANÇA
Autores: Picolé da Beija Flor, Serginho Sumaré,Samir Trindade,Serginho Aguiar, Dison Marimba e André do Cavaco
Samba-enredo vencedor com o qual a Beija-Flor irá homenagear os 50 anos de Brasília no Carnaval de 2010