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Poemas para Brasília
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02 de Setembro de 2010 |
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CANTIGA DA BAIXA UMIDADE
O mato estala nos campos de setembro
onde a vida perde o viço
e o mundo é palha.
Tudo é fumo no horizonte desses campos
lavados ao calor que avança em ondas.
O peito dói, e se esfarela
como o barro calcinado nas queimadas.
Uma angústia se instala sem aviso.
Todo gesto é lento.
Até o silêncio agride.
Derrotado à fornalha dos cerrados,
o frágil coração nem mais bombeia.
O sangue vira pó dentro da veia.
Nesta umidade baixa e relativa,
qualquer canto de sereia me cativa,
qualquer ponta de cigarro me incendeia
“Toda poesia é semente. Nenhum verso vira pó. Todo verso vira pólem”
Transcrito da news-letter de Paulo José Cunha
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01 de Setembro de 2010 |
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Brasília
Minha terra tem ipês
Amarelos a brilhar
Tem um céu muito extenso
E um prédio em H
Tem ainda muita gente
Que veio bem contente
Pra essa terra morar
Minha terra é patrimônio
Pois Dom Bosco teve um sonho
E que graças a JK
Pôde se realizar
Não permita Deus que acabe
Sem mais gente cativar
Essa cidade cinqüentenária
Que sempre nos faz sonhar
Post Yuri Farrapo, poeta brasiliense
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26 de Agosto de 2010 |
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Os viventes se movem
pastel de cana e caldo de queijo
pastel de vento e caldo de desejo
pastéis inventam sugerem despejos
sonhos de vento arrebatam frígidos beijos
às cinco da manhã, dificeis trôpegas
as pernas sentem o cheiro de
urina mal curtida dos não-dormidos
insones na rodoviária, que tem mais
luzes que assentos, mas placas que
ônibus, mais olhos que desejos mais
desejos que bocas, mais bocas que
comida às oito na rodoviária já é meio
dia para quem acordou às cinco e saiu do
gama, recanto das emas paranoá brasilinha e meio
dia já é fim de jornada para quem nem vai
almoçar pastéis de vento caldos de desejo às
seis ave marias escuridão já embota
o cérebro embota o estômago já embota
as botas nove da noite já é
hora de dormir pastéis de desejo
caldos de despejos à meia noite lembra?
que dia foi ontem se lembra pastel de
cana e caldo de queijo na rodoviária
João Bosco Bezerra Bonfim, poeta cearense, natural de Novo Oriente.
Poema transcrito da antologia "Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira.
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19 de Agosto de 2010 |
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Agosto
O verde latente
no chão do cerrado.
A grama crescente
na seca planalta.
A vida escondida
no seio da terra.
A água bebida
Do ar e da relva.
As nuvens esparsas
no céu tão azul.
A chuva escassa
no rumo do sul.
Aglaia Souza, poetisa natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
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12 de Agosto de 2010 |
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A CIDADE
a cidade me distrai quando eu
passo
como o vento
ora rápido ora lento,
a serviço do acaso.
o caminho
faço ele todo de peito aberto.
olhos de espinhos e de espanto,
a cidade me destrói, eu penso
em prantos
e levo à queima-roupa
saraivadas roucas de acalantos
e lenços encharcados.
Fernanda Barreto, poetisa gaúcha, reside em Brasília desde 2003.
http://transitivadireta.blogspot.com
poema transcrito do livro “50 anos em seis”, Teixeira : gráfica e editora
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03 de Agosto de 2010 |
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Léo e Bia
No centro de um planalto vazio
Como se fosse em qualquer lugar
Como se a vida fosse um perigo
Como se houvesse faca no ar
Como se fosse urgente e preciso
Como é preciso desabafar
Qualquer maneira de amar valia
E Léo e Bia souberam amar
Como se não fosse tão longe
Brasília de Belém do Pará
Como castelos nascem dos sonhos
Pra no real achar seu lugar
Como se faz com todo cuidado
A pipa que precisa voar
Cuidar de amor exige mestria
E Léo e Bia souberam amar
Letra da música “Léo e Bia”, de Oswaldo Montenegro
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22 de Julho de 2010 |
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Brasília
A tua aparência me espanta.
No meu espanto, me acordo.
O meu despertar te encanta,
O teu encanto me atordoa.
No meu atordoamento, me encontro.
No meu encontro, te perco.
O teu passado fez o meu presente, o meu
presente fará o teu futuro.
Assim, você me faz. Assim, eu te compreendo.
Dessa forma, assim diferente, nos
compreendemos.
Dessa compreensão, nasceu a indiferença.
Da indiferença, a compreensão.
Dos teus prédios retos, vi as curvas da vida.
Nas curvas da vida, compreendi a incerteza.
Das tuas faltas de esquinas, fiz minha presença.
Da minha presença, surgiu o meu canto.
Brasília, minha Brasília.
Richard Zoltan Seabra Reis.
Poema transcrito do Correio Braziliense, 25/04/2010.
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Terracap contra a Ceilândia |
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05 de Julho de 2010 |
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Terracap contra a Ceilândia
(...) É triste ver pelas ruas
A lama a escorrer
As crianças nela brincando
Logo vão adoecer
Se não tem nenhum conforto
Só resta mesmo é morrer
Eu tenho meu barraquinho
Cheio de mato ao redor
Não me deram uma tábua
Foi eu com meu suor
Querem agora me tomar
Sem ter um pingo de dó (...)
Joaquim Bezerra da Nóbrega, poeta brasiliense.
Transcrito do livro “Terracap contra a Ceilândia”
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14 de Junho de 2010 |
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A arquitetura da pedra
I
Entre desvãos de avenidas,
como o fio dentro da agulha,
num curto espaço de tempo
dá-se a uma cidade ruas;
às ruas dão-se calçadas
e às calçadas, cada uma,
dá-se o retalho da pedra
nos pés descalços da chuva,
entrelaçando-se em muitos
curto-circuitos de curvas,
que a meia altura parecem
quadrados de hipotenusas.
II
Cidade contemporânea,
simples, linear, compacta:
milhões de metros quadrados
em quatro quartos de quadras.
Com ruas que mais parecem
corredores de entressalas,
habitando o espaço livre
e horizontal das fachadas,
onde, a cada dia, a gente
faz-se mais acostumada
ao tempo manso que adia
as tardes entediadas.
Nunes de Castro
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
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SONETO DA CIDADE SUBTERRÂNEA |
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04 de Junho de 2010 |
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SONETO DA CIDADE SUBTERRÂNEA
Infensa a essa Brasília que se ufana
existe outra cidade, dissidente,
intensa, visceral, profunda, humana,
imensa, seminal, gentil, decente.
Ao pé dos monumentos, sob a grama,
lateja a outra cidade, descendente
de um movimento antigo, sem programa,
de universalidade transcendente,
que essa gente comum, sempre espontânea,
era após era, conduz e sustenta.
Avesso à cupidez contemporânea,
prefiro a lucidez que nada ostenta:
saúdo esta Brasília subterrânea,
com milhares de anos (não cinqüenta).
Wilson Roberto Theodoro
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
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A águia vê milhões de quadradinhos. |
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03 de Junho de 2010 |
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A águia vê milhões de quadradinhos.
Estáticos, lado a lado. Infinitos blocos espalhados...
A águia enxerga uma cruz, ao relento, em meio ao nada.
Caminhos abertos, sementes lançadas.
Céus, campos, vidas que se cruzam. Eixos unidos
Levam e trazem histórias, farelos de passado.
Levam consigo anseios, medos, frustrações, expectativas,
A velocidade estupenda.
Sentimentos que afloram, dores que se curam.
Existências que vão e vêm,
Pessoas sempre de passagem,
Fins que irrompem, inícios que terminam.
Um rastro de JK, curvas de Lúcio Costa, Niemeyer.
Traços de Athos Bulcão, Bianchetti e tantos outros
A águia vê algo surreal, onde tudo é monumental,
Tudo é arte, textura, imagem, movimento, mudança,
Onde a esperança é a chama da vida,
Onde os ventos arrastam o pó vermelho
E mancham de cultura o primeiro que passa.
A águia vê explosões de cores, formas, etnias, religiões,
Gente que se move, num fluxo frenético, na busca pelo novo,
O amanhã.
A águia avista além da modernidade,
Aspira a um celeiro de diferenças, misturas.
E tudo isso, sacolejando a cabeça da águia, faz do sonho um impulso.
1960. Faz-se a mola do país.
E a águia, e toda aquela geração,
Celebra bodas de ouro.
E a história permanece, fermenta sonhos, alimenta destinos.
Brasília, para sempre, a capital da esperança.
José Reis Neto
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
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BRASÍLIA – 50 ANOS DE VÔO |
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02 de Junho de 2010 |
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BRASÍLIA – 50 ANOS DE VÔO
Reta curvilínea
Poética de seu destino.
Movimenta-se por dentro
Em carreatas de lutas.
Traços de arquitetura popular.
Inquietações são seus eixos
Cultura se manifesta libertária
Síntese de habitantes!
De norte a sul, leste a oeste.
Idéias circulam...
Formam corpo idealista
Que se lançam na nave Brasília
Sem preconceito!
Gênese da nova sociedade.
Pegue esse vôo
Essa viagem é concreta!
Maria Lúcia Leal
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
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CANTIGA DE AMOR PARA UMA CIDADE |
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01 de Junho de 2010 |
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CANTIGA DE AMOR
PARA UMA CIDADE
Há que te veja nave de aço, avião
mas eu te vejo ave de pluma,
asas abertas sobre o chão.
Há quem te veja futurista e avançada
mas eu recolho em ti a paisagem rural
lá de onde eu vim:
fazenda iluminada.
E quem declara guerra a teu concreto armado
nunca sentiu a paz do teu concreto desarmado.
Há quem te veja exata, fria, diurna e burocrática
mas te conheço é gata noturna, quente, sensual – enigmática.
Há quem te gostaria só Plano Piloto, teu lado nobre,
mas eu também te encontro na periferia, teu lado pobre.
Há quem só te reconheça nos cartões postais
mas eu te vejo inteira, planaltina,
cercada de gamas, guarás e taguatingas.
Aos que só te querem grande – Patrimônio Mundial,
egoisticamente te declaro patrimônio meu, exclusivo:
Brasília minha
e, no meu bem-querer diminutivo, Brasilinha.
Marcus Vinícius Carvalho Garcia
Poema indicado para Menção Honrosa
Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
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24 de Maio de 2010 |
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Ode a Brasília
“Era um rabisco e pulsava”
Carlos Drummond
Era só um rabisco no ermo que atordoa os poetas
Um sopro ponteando o nada
ao mais concreto do lugar nenhum.
Um verso solto que de tão plano,
devia só ter a altura de um horizonte embaçado.
Desses que só os olhos desertos de utopia
são capazes de umedecer.
Pura cicatriz em nanquim, regada a lápis de cor.
Depois vieram os retoques, as curvas
arquitetadas com inspiração dos céus.
Esperamos os quase mil dias de tua gestação,
para te ver nascer poesia concreta,
além dos números, suspensa
na alvorada que toca Deus e o chão.
Abençoada pelas mãos de Drummond
Estampada nos vãos, na urbana legião de amores,
Ideologias, praças e poderes.
“Teus endereços sem alma”
fingem a igualdade que só se conhece
com o sabor do humano que te inventa.
Mimeografei o futuro na geração
que poemou farinha com iogurte.
Aprendi teus sotaques e o candango
jeito de proverbiar-te simples como o povo.
Só para cantar teu contorno nave
Só para abençoar teu corpo pássaro
que agora prepara as asas para o grande vôo
que pressente a história.
Éder Rodrigues, poeta de Belo Horizonte.
Poema vencedor (1º lugar) do Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
Lívido concreto
A casca dentro da casca
Sobrepuja a pus do cerrado
O líquido da ferida
Alimenta a língua dos insetos
E flamba o ar com gotas de estuário
A casca dentro da casca
Punge os olhos do concreto
Desova preto e branco, pedra cor de cinza
Sobre um sabor futurista com um grifo
As cascas dentro da casca
Adormecem com chás de concretos
A goma do fruto penetra na partitura das árvores
Para a transfiguração do arquiteto
A casca dentro do ventre
Situada no meio da entranha mitológica
Apresenta pedras expostas no cerrado
Onde respiram idéias de vida seca pelo avesso
A casca dentro do dentro ensaia canções fáusticas
Adubando o fruto da terra a palavra lambe o feltro
E as folhas arrancam forças
Para a beleza polimorfica do cerrado
Nas vésperas do amorfo
A casca dentro da boca
Mastiga a palavra Brasília
Com gosto de pedra, pedrada,
Pedrapomes, pedraria, pedrasabão,
Pedregoso, pedregulho,
Pedreira, pedreiro, pedentro
Levo a língua quando engulo Brasília
E sobressaio em sonhos de traços pomo.
Paulo Henrique Costa Longuinho
Poema classificado em 2º lugar no Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
Candanga
para Paulo Bertran
Candanga, a alma leve dos cerrados,
a moça e seus cabelos, nos longes de Goiás.
Candangos nós, teus filhos de adoção.
Candangos nossos filhos,
nascidos do teu chão.
A mão que te acenou de tão distante
foi quem prometeu que te faria.
Trocou o talvez por neste instante,
e a cidade assim se fez.
Candangos Vladimir, Bertran, Oscar, Sayão.
Candangos Lúcio, Vera, Nicolas, Bulcão
Candangos Teodoro, Cássia, Renato, Catalão.
Misteriosos como os campos de cerrados
de longe, apenas troncos retorcidos
de perto, segredos revelados:
água de mina, raízes, folhas, flores
beleza pura que explode por detrás
dos detalhes escondidos na aridez
da vastidão dos campos de Goiás.
Paulo José Cunha
Poema classificado em 3º lugar no Concurso Nacional de Poesia “Brasília: 50 anos”
> Clique aqui para ouvir a cobertura feita pela Rádio Nacional (FM) |
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VERSOS PARA UMA CINQUENTONA |
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18 de Maio de 2010 |
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VERSOS PARA UMA CINQUENTONA
I
Apesar da depressão,
Trazida pela esperteza;
Da politicagem suja,
Repleta de safadeza,
Brasília hoje é uma festa
Rodeada de beleza.
II
E Miguezim de Princesa
Contemplou todo esse brilho,
Cantou com todas as bandas
O verso do estribilho,
Andou no eixão dizendo:
“Brasília, eis aqui seu filho”.
III
Não tem dinheiro na bolsa,
Não há propina na meia
Que possa encobrir o sol
Cheio de luz que te clareia
E não há um corajoso
Para te chamar de feia.
IV
Tuas largas avenidas,
Tua imensa vastidão
Nos faz como JK
Contemplar a imensidão
E sentir pelo cerrado
O futuro da nação.
V
Foi aqui que os operários,
Batalhando pelo pão
(Cimento, pedra e tijolo),
Levantaram a construção,
Com uma lágrima de saudade
E muitos calos nas mãos.
VI
Gente de todos rincões,
Do sertão e da ribeira,
Gente do bolso furado
Ou repleta a algibeira,
Construiu um monumento
Que é a alma brasileira.
VII
Do sonho de São Dom Bosco,
A quem Deus deu a resposta;
Dos traços de Niemeyer,
Do gênio de Lúcio Costa,
Da força dos operários,
A fé ganhou a aposta.
VIII
Brasília é para quem gosta
De ter o céu como mar
E transformar em sua praia
O Lago Paranoá,
Saber que a fé que ergueu
Não vai deixar derrubar.
IX
Nunca vai desmoronar
O sonho de uma geração
Visionária, independente,
Que pensa grande a nação.
E, mesmo que falhe a mente,
Não faltará coração.
X
Terra de grandes artistas,
Do progresso e da bonança,
De sonhos e de conquistas,
Que vão ficar na lembrança,
Brasília é fibra e é luta,
Capital da esperança!
Miguezim de Princesa, poeta paraibano.
Post Joilson Portocalvo
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11 de Maio de 2010 |
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-- Brasília Cinqüentona.
Completa cinqüenta anos
A capital do Brasil,
Dedico minha homenagem
A um povo varonil,
Que aqui chegou primeiro,
Para esse pioneiro
Minha nota é nota mil.
Aqui o bravo candango
Enfrentou lama e poeira,
Operou máquinas pesadas
Britador e betoneira,
Derramou suor no solo,
Embalou Brasília ao colo
Como filha verdadeira.
Mostrado em sonho a dom Bosco
A terra de leite e mel,
Corajoso Juscelino
Tira a obra do papel,
Lúcio Costa usa o compasso
Parece até que Picasso
Também usou seu pincel.
A grandeza desse povo
Para mim não tem resposta,
A coragem do candango
E o feito de Lúcio Costa,
Homem de tento afinado
Por Juscelino inspirado
Cumpriu a sua proposta.
No Catetinho Juscelino
Reunia o conselho,
Nas obras os operários
Rasgando o barro vermelho,
Ou no pântano alagado
Os candangos atolados
Na lama até o Joelho.
Da Vale do Rio doce
Carretas de ferro-gusa,
O ferro de qualidade
Para não haver recusa,
Niemeyer tomando a frente
Pois o homem inteligente
Do saber usa e abusa.
Contemplando sua obra
O presidente Juscelino,
Lá do seu memorial
Ao ouvir a voz do sino,
Lança um olhar à Catedral
De forma natural
No seu jeito genuíno.
No coração do país
Foi erguida uma bandeira,
Surgiu nossa Brasília
A capital brasileira,
De Brasil nome oriundo
Reconhecida no mundo
Brasília não tem fronteira.
Brasília é um patrimônio
Que deve ser preservado,
Espero que ela cresça
Sem destruir o cerrado,
Só assim a natureza
Completa essa beleza
De um povo civilizado.
A Catedral de Brasília
De moderna arquitetura,
Como símbolo de beleza
Mostrado na armadura,
De ferro e concreto à vista
Para encantar o turista
Mostra em bronze as esculturas.
Lá da torre de tv
A vista é impressionante,
Se quiser ver a cidade
É só subir ao mirante,
Ou olhar o poente e ver
O sol ao se esconder
Dourando o horizonte.
Brasília tem beleza
Capaz de nos encantar,
O nosso cartão postal
É a ponte Jk,
De onde ver-se uma lancha
Pequena como uma mancha
No lago Paranoá.
Dentre todas as belezas
Nenhuma é equiparada,
À residência oficial
Palácio da Alvorada,
Que fica às margens do lago
Onde o vento em afago
Vai soprando uma jangada.
As águas daquele lago
Tem a cor de esmeralda,
Pra completar a beleza
Bem perto do Alvorada,
Tem o esqui de prancha
E de propósito uma lancha
Que continua ancorada.
Nas proximidades do lago
Tem o setor hoteleiro,
Para o lazer dos hóspedes
O passeio de veleiro,
No meio da natureza
Mostrando assim a beleza
Do planalto Brasileiro.
Como voa uma gaivota
No horizonte suave,
Nós que somos tripulantes
Voamos na nossa nave,
Num vôo constante e raso
Sei que não foi por acaso
Que Lúcio Costa te deu este formato de ave.
O Zoológico de Brasília
Que muita gente conhece,
Foi palco de uma tragédia
Que quem viu jamais esquece,
Um sargento na esperança
De salvar uma criança
Até a morte padece.
Quando a criança caiu
Na fossa das ariranhas,
Um destemido sargento
De uma coragem tamanha,
Mesmo antes de ser morto
Ainda salvou o garoto
Foi sua ultima façanha.
Mas, uma mancha na história
Denegriu o nosso hino,
Apesar dessa barbárie
Brasília segue o destino,
Sem esquecer Ana Lídia
Que continua na mídia
E o nosso índio Galdino.
O líder pataxó
Trazia a agenda cheia,
Representando os índios
Que ficaram na aldeia,
Aqui o queimaram vivo
E acharam não ser motivo
Pra responder na cadeia.
E o caso Ana Lídia
Nunca foi esclarecido
Os filhos dos poderosos
Não chegaram a ser punidos,
Abriram um precedente
Formando uma corrente
Em favor dos envolvidos.
Mas, nossa gente é autêntica,
E Brasília vai avante,
Confiamos na justiça
E numa imprensa atuante,
É constante este luta
Ao desvio de conduta
O povo está vigilante.
Para a glória de seu povo
Brasília triunfará,
E o sonho de dom Bosco
Ajuda o povo à sonhar,
A esperança não se encerra
Por amor a esta terra
E homenagem a Jk.
Já pensando nos cem anos
Da Capital da Esperança,
Faremos hoje um pacto
O velho o jovem e a criança,
Para que seu centenário
Dê ao rico e ao operário
Orgulho desta aliança.
Se aqui os pioneiros
Plantaram a semente,
Cabe ao brasiliense
Ser mais eficiente,
Numa constante vigília
Não se esquecer que Brasília
É patrimônio da gente.
Esta cidade moderna
É orgulho da nação,
Brasília é mais Brasileira
Pela miscigenação,
Aqui a gente se abraça
Essa mistura de raça
Aproxima o cidadão.
Brasília foi projetada
Para não ter esquina,
E esta arquitetura
Que hoje aqui predomina,
É moderna e sinuosa
Tornando-a graciosa
E ainda mais feminina.
Se Jk decidisse
Fazer uma correção,
Chegasse com Lúcio Costa
E o Bernardo Sayão,
Eu não sei como seria
Mas, eu acho que daria
Uma grande confusão.
E se chegasse dom Bosco
Para a Inauguração,
E visse os que erraram
Aqui pedindo perdão,
Talvez fossem perdoados
Depois de ter apanhado
Uma surra de bordão.
Homens que formam o cérebro
Deste crânio de concreto,
E tem nas mãos o poder
Seja por lei ou decreto,
Quando faz algo errado
Espera do eleitor enganado
Só um protesto discreto.
Nas ruas e avenidas
O corre-corre é um fato,
Somente o transito não anda
É de Brasília o retrato,
Que estressa o motorista
E ali perto o congressista
Tenta salvar seu mandato.
A nossa rodoviária,
Já foi cartão de visita,
Hoje está mal cuidada
E já não é tão bonita,
Tem criança abandonada
Que vem sendo aliciada
Não sei se alguém acredita.
É preciso agir rápido
O alarme já soou,
Este não foi o sonho
Que dom Bosco um dia sonhou,
Não estão cumprindo o papel
Ou será que o leite e o mel
Só para o pobre faltou.
O coração de Brasília
É a Praça dos Três Poderes,
Que ostenta a bandeira do Brasil
Com os dizeres,
Ordem e Progresso
E as leis vem do congresso
Com direitos e deveres.
Nessa imensa esplanada
Onde se reúne a massa,
Em busca de um ideal
Se o movimento fracassa,
O evento perde o sentido
Pois fica no prometido
E de promessa não passa.
Esse espaço é para o povo
Lançar o seu manifesto,
Mas aquele ato cívico
Sempre acaba em protesto,
Pois quem está no poder
Diz que não pode atender
Justificando seu gesto.
Mas a gente não desiste
Somos todos caminhantes,
Vamos juntos nesta luta
Mesmo que ainda distante,
Caminhando sem parar
É preciso acreditar
Nossa luta vai avante.
Quando vier à Brasília
Não deixe de visitar,
O Palácio do Catetinho
E o Memorial Jk,
Do homem que com carinho
Abriu um novo caminho
Para o Brasil caminhar.
Foi nestes lugares sagrados
Que se escreveu a história,
No Catetinho Jk.
Fez morada provisória,
E no seu Memorial
Os restos deste imortal
Que ficará na memória.
Ao ver o Memorial Jk.
Me aperta o coração,
Perece que estou ouvindo
Aquela linda canção,
A música é peixe vivo
E nela encontro motivo
Pra esta minha emoção.
Nunca vou
Esquecer esta alvorada,
Onde o sol desponta no oriente,
Refletindo a brancura do mármore na fachada
Sob o céu azul da esplanada
Vou amar Brasília eternamente.
Edisio Araújo, poeta paraibano.
Post Ilva Araújo
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03 de Maio de 2010 |
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Brasília 50 anos
Dom Bosco sonhou para realização de Deus,
através da audácia e da coragem de JK
em aventurar-se no cerrado onde foi traçada a CRUZ,
lugar de RESURREIÇÃO!
quantos desafios vencidos!
e que luta sobre-humana de poucos que acreditavam
e realizavam possivelmente a construção de uma Nova Jerusalém inenarrável,
um lugar onde todos seriam iguais na vontade
de crescer e ser feliz.
Transformando o sonho em realidade,
nasceu uma linda criança que cresceu,
virou mulher e como o coração do mundo
acolheu estrangeiros e retirantes,
pobres e ricos de todos os cantos,
de todas as nações
que hoje compartilham juntos de suas realizações
e também de seus momentos mais vulneráveis.
Brasília, uma linda senhora, respeitável e respeitada
por sua gente humilde que a fez imponente
em seus belos traços incomparáveis de rara beleza;
que encanta o mundo e emana todo o poder de uma rainha.
Parabéns a minha, a sua, a nossa BRASÍLIA!
Post Valdimira Bahia de Souza, poetisa brasiliense
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26 de Abril de 2010 |
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Lucio Costa
São de rodas teus sonhos?
Há eixos e tesouras na utopia?
De que material é feito o desejo?
Existe forma no escape, na fuga,
na evasão das avenidas?
Os aviões com sua turbo-hélice
obsedante.
A cidade redonda sem círculo que a
encerre.
Tuas ruas futuras foram construídas com
a argamassa
mais líquida: o humor do homem.
Teus desenhos pressupõem o homem
ideal
que traço algum, humano ou divino,
ousou riscar no papel ou na vida.
Terias primeiro, velho Deus do desenho
de refazer o barro e, em vez do sopro,
dar-lhes traços que o façam
menos silhueta.
A cidade tem a volúpia do centro,
o redemoinho de cimento,
o desejo calcado de engolir-se
em sua rota traçada para fugir de si
cada vez que mais se encolhe.
A cidade é enorme roda-gigante,
feita na barroca voluta de eixos desfeitos
e tesouras e asas e quadras
que se enroscam no gabarito
do homem estonteado e central.
Esta cidade é cêntrica,
e suas bordas repetem o centro,
como uma pedra lançada n’água,
e, embora tudo me tonteie
e engula em sua voracidade de vórtice,
sinto-me sempre prestes
à periferia dos nervos,
à margem da vida,
à borda urbana.
No papel, as cidades
são plausíveis como uma maçã.
Aqui há maresias e marés
na memória escafandrista da secura
de agosto.
Ronaldo Costa Fernandes, poeta maranhense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense – 22/04/2010.
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ANOTAÇÕES PARA PENSAR BRASÍLIA |
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16 de Abril de 2010 |
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aeronave crucificada no centro,
estrutura área, internamente aérea,
aerada, sua, dela-cidade, circulação.
Sanguínea.
Pois pessoas caminham,
com o motorauto-corpo
fora ou dentro do outro
automotor –
o pela pessoa inventado.
A cidade, extensão corpo,
efeito colateral do corpo.
A cidade, não segunda,mas, primeira
pele, para quem olha de fora,
e você eu nós somente olhamos
de fora, o corpo próprio, se,
sem nos olhos,
a roupa ressonância magnética.
A cidade.
Pele colateral.
Mais ou menos
dura do que uma palavra,
mais ou menos dura
do que os poros duros
porém quebráveis
dos dois eixos da linguagem
- os dois eixos,
metáforametonímia,
outra
aeronave crucificada no centro
da linguagem.
Sanguínea.
Pois pessoas caminham as palavras,
param-se de pé com e nelas,
param-nas de pé com o autocorpo,
portam e são portadas por elas,
por isso elas, as palavras,
minérias porém sanguíneas,
banhadas e até enrugadas
pela águapessoa inventora delas,
inventada por elas.
As palavras.
Então, o avião, cruz fixada
No centro da palavra e da cidade,
e cidade e palavra são,
nem segunda, mas primeira pele,
pois, eu você nós,
se sem olhos enroupados
por ressonâncias magnéticas,
só vemos o corpo pelo lado de fora,
de modo que a segunda se torna a primeira.
Pele.
Então, na cidade
de aviãocruz no centro,
na cidade na linguagem
de aviãocruz no centro,
as pessoas circulam,
sanguineamente,
portando em seus corpos,
em seus multicentros,
planuras, planagens
de um vôo
em cruzaéreaerada,
proveniente das palavras da
desta cidade,
portadora e portada
por pessoas,
por corpos-palavra,
crucificados crucimoventes
na ausência de centro
no centro-em-todo-lugar
se por ele caminham
pessoas
Wesley Peres, poeta goiano, natural de Goiânia.
Poema transcrito da Revista Humanidades, UnB – número 56
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Agora, Brasília merece colo e carinho |
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31 de Março de 2010 |
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Agora, Brasília merece colo e carinho
Paulo José Cunha
Meus cinco ou seis leitores hão de me perdoar, mas durante este mês vou abrir uma exceção em nosso Telejornalismo em Close para cantar Brasília, a cidade que um dia foi plantada bem no meio do planalto goiano, e que completa neste 21 de abril seus 50 anos enfrentando a maior crise de sua história. O que a cidade e seus moradores mais precisam neste momento é de cuidado. A paciente já saiu da sala de cirurgia, e daqui a uns dias sai da UTI. É a hora da atenção e do carinho dos parentes e amigos, para que a recuperação ocorra da melhor forma possível. Demorou meio século para ocorrer esse batismo de fogo rumo à maioridade. Doeu, mas tem sido pedagógico. Estamos aprendendo muito com tudo isso. Principalmente, a gostar ainda mais desta bela esfinge do cerrado.
Aí vão dois poemas que escrevi para a querida Brasília. É meu jeito de acarinhar uma das mais belas realizações do gênero humano, tão importante que aos 23 anos que foi elevada pela UNESCO à condição de Patrimônio Cultural da Humanidade. Ela é maior, bem maior do que os que a envergonharam. Celebremos!
Cantiga de amor
Para Brasília
Há quem te veja nave de aço, avião
mas eu te vejo ave de pluma,
asas abertas sobre o chão.
Há quem te veja futurista e avançada
mas eu recolho em ti a paisagem rural
lá de onde eu vim:
fazenda iluminada.
E quem declara guerra a teu concreto armado
nunca sentiu a paz do teu concreto desarmado.
Há quem te veja exata, fria, diurna e burocrática
mas te conheço é gata noturna, quente, sensual - enigmática.
Há quem te gostaria só Plano Piloto, teu lado nobre,
mas eu também te encontro na periferia, teu lado pobre.
Há quem só te reconheça nos cartões postais
mas eu te vejo inteira, Planaltina,
cercada de Gamas, Guarás e Taguatingas.
Aos que só te querem grande - Patrimônio Mundial,
egoisticamente te declaro patrimônio meu, exclusivo:
Brasília minha
e, no meu bem-querer diminutivo, Brasilinha.
Candanga
para Paulo Bertran
Candanga, a alma leve dos cerrados,
a moça e seus cabelos, nos longes de Goiás.
Candangos nós, teus filhos de adoção.
Candangos nossos filhos,
nascidos do teu chão.
A mão que te acenou de tão distante
foi quem prometeu que te faria.
Trocou o talvez por neste instante,
e a cidade assim se fez.
Candangos Vladimir, Bertran, Oscar, Sayão,
Candangos Lúcio, Vera, Nicolas, Bulcão
Candangos Teodoro, Cássia, Renato, Catalão.
Misteriosos como os campos de cerrados
de longe, apenas troncos retorcidos
de perto, segredos revelados:
água de mina, raízes, folhas, flores
beleza pura que explode por detrás
dos detalhes escondidos na aridez
da vastidão dos campos de Goiás.
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23 de Março de 2010 |
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Brasília
Jovem, muito jovem,
Nos idos da vida, no início,
Vim como sem sacrifício,
Aos jovens tal lhes convém.
Da esplanada o choque inicial.
A estrutura destas vias circulando,
Horizonte livre entorno guardando,
Ordenada arquitetura espacial.
Surge no planalto destes confins,
Onde cobre o cerrado as colinas,
Irrigada por águas cristalinas.
Uma cidade! Quem a pensaria assim?
Fluídas inigualáveis visuais,
Verdes tons que à vista contentam,
Azuis de alvoradas que encantam,
Crepúsculos assim jamais.
Aqui a vista se perde e flui
Num horizonte infinito.
Eleva a mente ao mais distante fito,
A paz ao coração retribui.
Brasília é luz! Brasília é ar puro!
Céu de estrelas em noites de lua cheia,
Há quem duvide, mas há uma sereia,
Doce canta às margens do lago escuro.
Céu puríssimo azul claro ou anil,
De paisagens bucólicas,
De tardes lindas, púrpuras, frias,
Onde Dom Bosco previu.
Mas este céu assiste e sangra inteiro,
Por homens que do país o destino,
Foi confiado e está ao desatino,
Salvo Ulisses, um guerreiro.
Post Ivaldo Roland, poeta e arquiteto cearense
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EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA |
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04 de Março de 2010 |
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EM BRASÍLIA NA RODOVIÁRIA
Em Brasília na rodoviária
Encosto-me à lanchonete sob a chuva tropical
Os homens e as mulheres
Ocupam lugares no ônibus
Cinzentos
Violáceos
E
Amarelos
E recuperam nos seus rostos cansados
A cor do seu transporte colectivo
Por entre ônibus putas e travestis
Movem-se como pássaros de aviário
Protegidos do dilúvio pelo viaduto dos eixinhos
Trespassado por velocíssimos automóveis
Há relâmpagos vindos de todas as direcções
Que se sobrepõem aos dos olhares dos transeuntes
Reflectidos nas imensas poças
Construídas com a água
Empurrada pelo vento
E pelos esgotos entupidos
Da via Monumental.
Todos aqueles caminhos levam a qualquer lugar
A tantos e todos os lugares que o sonho se torna
Desprezivelmente desnecessário
Ao meu lado uma mulher jovem bebe um guaraná
E um policial militar devora literalmente um
Bolinho de bacalhau junto ao ponto para Taguatinga
Abrandou a tempestade
A chuva cai agora lenta e oblíqua
Atravesso a Esplanada dos Ministérios
Vergado ao peso do silêncio
Acolho-me ao espaço anterior
À terra vermelha
Niemeyer cavalga um Pégaso
Ao longe sobre o lago
Ardem-me os olhos o braço tenso segura o estandarte
A terra move-se
Milhares de candangos avançam em malha
Compacta pela W3
Colocando nas palavras a estrutura da esperança
Inesperadamente uma superquadra nasce
No extremo da Asa Norte na direcção contrária
À chuva
Foi quando Lucio Costa
Encostado ao semáforo experimental
Do Parque da Cidade
Decidiu não haver nascido.
Rui Rasquilho
Poema transcrito do livro “25 Poemas brasileiros & Uma saga lusitana”
Editora Thesaurus, 1997
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07 de Fevereiro de 2010 |
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Ontem,
Do espaço não preenchido
Inerte e frio,
Vi brotar o ponto,
Sem rosto,
A cruz.
Em formação...
O enigma da nação.
Hoje,
Em cores,
O espaço preenchido
Avança...
No Brasil 21
Na Brasília da esperança!
Cláudio Luiz Viegas é morador do Lago Norte
Transcrito do Especial: 49 anos de Brasília, Correio Braziliense
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25 de Janeiro de 2010 |
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Brasília
Caminho entre carros em suas avenidas,
busco trechos poéticos em sólidos espaços
de flores artificiais e concreto armado.
Deslizo em seu asfalto,
vazo e volto como gosma
sem conseguir me impregnar em seu corpo.
Visito palácios onde já não existem reis,
meus passos lentos se abrem ao seu infinito.
Seu céu azul insiste em me transformar em romântico,
eu, surrealista, me despeço
calcando muros inexistentes.
Me alucino.
Me entrego a você,
mulher de ouro dos ladrões,
miserável invenção de cabeças gananciosas
verme inoportuno que não atrai.
Não sinto em seu corpo esquelético,
mesmo embrenhando por suas veias expostas,
a liberdade vir morar.
Karma que, em você,
força anticósmica,
nesse tempo de todas as crenças,
estabelece visitantes da além loucura,
que estudam seu cerrado:
buscam respostas, saem com indefinições.
Estação sem nome,
porto para os barcos de todas as nações.
Tempo que não passa nem no fim.
Devassidão. Solitude. Medo.
Senhora dos desejos,
por tanta dor causada,
anuncia:
- Tenho as portas abertas!
Cigarras vêm,
zumbem em seus mangueirais,
zumbem até morrer,
norma selvagem.
Ésio Macedo Ribeiro, poeta mineiro, nasceu em Frutal.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
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20 de Janeiro de 2010 |
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Cimento & devaneio
Todos cantam sua terra
também vou cantar Brasília:
cimento que devaneia
em domingos de lascívia.
Os anjos da catedral,
madre erguida em praça pública.
Os vitrais incendiados
pelas centelhas da súplica.
Canto as asas desse pássaro,
plumagem de relva e brisa.
Seus mamilos lapidados
em domingos de lascívia.
O lago como um rebanho
de ovelhas pacificadas.
Pupila de um deus insone
que incendeia as madrugadas.
Lucio Costa, Niemeyer,
a Ermida de Dom Bosco.
Seios brotando da relva
nas tardes de vidro fosco.
Canto a cidade sonhada
pelo argonauta de Minas.
- Urbe que o mito preserva
dentro de nossas retinas.
Os candangos e a magia
das mãos que semeiam gestos,
modelam vigas que brotam
dos sonhos dos arquitetos.
O cerrado e seus crepúsculos,
os momentos de vigília.
O amor que devora os corpos
em domingos de lascívia.
Canto o Palácio dos Arcos,
o Parque Zoobotânico.
Os espaços que me ofuscam
com seu fausto arquitetônico.
Em domingos de lascívia,
de azul mais rijo e mais puro,
canto a cidade e seus olhos
voltados para o futuro.
Trevos que emergem das trevas,
volúpias que se bifurcam.
Alamedas de aloendros,
retas que esbarram nas curvas.
Bustos despontam do verde
com o despudor de uma orquídea.
Nuvens são formas de incesto
em domingos de lascívia.
Presságios deitam raízes
no coração da metrópole.
Outrora, ali, só se ouvia
rumor de perfuratrizes.
Jardim de astúcia e algarismos.
- Urbe de rubros ovários
em cujo dorso galopam
descendentes de centauros.
Cidade em corpo de pássaro,
longas asas de albatroz.
Em teu ser de liberdade
um pouco de todos nós.
Francisco Carvalho, poeta cearense, natural de São Bernardo das Éguas Russas.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
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11 de Janeiro de 2010 |
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BRASÍLIA, 1960
A Oscar Niemeyer
Os cones de pó vermelho
soprados na face nova.
Nos cones, sacis antigos
girando no pensamento.
Ah! cones de pó vermelho,
os guris não trazem sustos
às tuas carnes de vento?
Da torre o verde engatinha
na tarde que asfixia:
os cones de pó vermelho
bebem patas de cavalos
pastando desabalados
os agres cachos do tempo:
os cones e seus cavalos
pisando nas mãos do vento.
Os giros vêm do invisível
trazendo mensagem lívida.
Os cones de pó vermelho
tangendo as cores do dia,
sopram os mais raros mistérios
sobre os olhos e cabelos
Há fluidas mitologias
hauridas desse momento.
Cavalos desesperados
sobre pasmos e desvelos
pastam passos e lamentos,
ruminam campos do outrora
pisando nas mãos do vento
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Transcrito do livro “Tempo de Ceifar”, 2002.
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03 de Janeiro de 2010 |
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Candanga
Límpida, álgida, nívea
ninfeta
lânguida.
Candanga
em pubescência.
Excrecências.
Cheiros.
Fiapos de manga
entre os dentes.
Pente.
A pele arrepia
onde fermentam
(rubor)
ao roçar da blusa
as meladas abelhas.
A nitidez se perde
e ela desmancha.
Curtindo o gosto de curtir a tarde
a aparência cândida
do dia.
Sob a água morna
do chuveiro
deixa que corra pelo corpo inteiro
- UAU!
o paladar mais fundo da alegria.
Reynaldo Jardim, poeta natural de São Paulo.
Transcrito do livro “Sangradas Escrituras”, Starprint.
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21 de Dezembro de 2009 |
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O piloto e o pássaro
à JK
E um pássaro
imenso, imponente,
ousado,
futurista, metálico,
pousou no cerrado.
Sentiu o cheiro do
chão,
bebeu águas do rio,
humanizou-se.
Batizou-se por Dom Bosco,
deu Graças a Deus,
e permaneceu em GOIÁS.
E o pequeno sabiá,
o joão-de-barro,
o bem-te-vi,
todos os passarinhos
ficaram assustados,
em suas histórias
humildes e sertanejas.
E as borboletas
fizeram reverência,
dançando cores,
sobre paus-terras,
pequizeiros e ipês.
Era abril.
As paineiras
viraram
damas de honra,
em seus
vestidos
cor-de-rosa.
O piloto
sorria
no altar
da poesia.
Ousou,
decidiu,
transformou
asas em
Cidade,
e proclamou
a liberdade.
Quis
que as
vértebras
do gigante
alado
fossem
harmonia,
equilíbrio,
no processo de
decisão.
A cabeça
do grande pássaro
pensava a justiça
pensava as leis
para a regência
da caminhada
dos Homens.
O hemisfério direito,
comungando o céu.
O hemisfério esquerdo,
comungando a terra.
O piloto cantava
vitória
no altar da história.
- Foi plural:
não sonhou
sozinho,
não realizou
sozinho.
O peito do pássaro
pulsava forte,
carregando a emoção
das pessoas
(candangos,
trabalhadores,
operários
da construção)
poetando e
conquistando rumos
para o Centro-Oeste,
poetando e
conquistando
rumos para o Brasil.
E o piloto
apostava
no teste:
trazer
o desenvolvimento
para o Centro-Oeste.
Choveram
versos,
em páginas brancas.
Pingaram
cores,
em telas brancas.
Caíram notas,
melodiando
o silêncio.
Ritmaram
passos,
e o palco
não ficou
vazio.
O mundo extasiou-se.
Correu,
virou Avenida das Nações
no Planalto Central.
GOIÁS abriu o peito
e acolheu
o piloto e
o pássaro.
GOIÁS abriu o peito
e acolheu
Minas Gerais.
GOIÁS abriu o peito
e acolheu o Brasil,
e o Mundo.
E tudo
virou um hino
ao novo Exupéry,
o Grande Príncipe,
o eterno Poeta
Juscelino.
Post de Sonia Ferreira, poetisa goiana.
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“Poemas para Brasília” Por Joanyr de Oliveira |
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12 de Dezembro de 2009 |
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“Poemas para Brasília”
Por Joanyr de Oliveira
Brasília sofreu, no último sábado, (5/12/2009) uma grande perda: morreu o poeta mineiro Joanyr de Oliveira que, além de cantar Brasília como musa em prosa e versos, fez um minucioso resgate da história poética da Capital reunindo em quatro antologias poéticas (sabe-se agora, segundo Joilson Portocalvo, que havia concluído outras duas, ainda inéditas) que conforme suas próprias palavras em “Poemas para Brasília”, de 2004, trouxeram à realidade a expressão de que “a prosa e a poesia que emanam do chão do cerrado nunca se perdem – continuam perpetuando sua herança poética de consciência e futuro, levantando talentos para as colheitas do amanhã...”
De fato, este site é um dos filhos desta sua obra. Por isso, no momento de sua morte terrena prestamos esta homenagem à memória de uma vida que registrou a página poética dos primórdios de Brasília e seus poetas.
José Rangel e equipe do site “Brasília Poética”
EPITÁFIO
Os casulos do silêncio
Recolhem meu rosto,
Meu canto e meu nome.
Entre arcanjos e estrelas,
Minha essência navega
Doce é o sabor do Infinito.
Joanyr de Oliveira
Transcrito do livro “Casulos do Silêncio”
Livraria Editora Cátedra, 1988
Rio de Janeiro

Lançamento de Poetas de Brasília, 1962. Em primeiro plano, Almeida Fischer, Alphonsus de Guimaraens Filho
(autografando), Joanyr de Oliveira, Ézio Pires e o editor Francisco Scartezini Filho.
Literatura de Brasília: esta
peróla desconhecida
“Sobrevivendo submersa em um oceano de indiferença, envilecida pelo preconceito, calcada pela incultura, a literatura candanga apresenta uma trajetória tão enriquecida quanto desconhecida em sua importância para a formação de uma consciência essencialmente brasiliense.”
Paulo Porto
“Entre os mortos pela noite/perfilavam-se lúcidos poetas./(O sopro de sua arte, sua arma,/mordia o pendão dos tiranos/hasteado nos píncaros do medo)”. “Pouco para tanta noite”, poema de Joanyr de Oliveira, falava do sofrimento de um intelectual, incapaz de reagir ante os sombrios anos de chumbo da ditadura militar e suas conseqüências para todas as áreas do conhecimento do País, inclusive a literatura.
Hoje a ditadura não existe mais, mas uma noite tão culpada quanto aquela que submergiu a intelectualidade brasileira (e brasiliense) parece pairar acima das nossas Letras: o desconhecimento. “Com a saída dos nossos escritores das redações dos grandes jornais – onde atuavam como revisores, redatores e editorialistas -, a grande ponte que havia entre o mundo literário e a imprensa caiu. Ninguém melhor que eles, com sua vivência, seu trabalho, sua experiência para enfocar com a necessária acuidade as peculiaridades do mundo literário”, afirma o advogado, jornalista, professor, poeta e contista mineiro Joanyr de Oliveira. E não sem conhecimento de causa. Parte dessa resistência à noção de que Brasília não tem literatura séria deve-se ao seu trabalho de antologista, de historiador e estudioso de nossas Letras. Para tornar justa a assertiva, basta registrar que ele foi o responsável pela seleção, organização e publicação das quatro antologias da poesia brasiliense, que representam um marco no mercado de publicações da cidade. Tais coletâneas abordam nossa literatura da década de 60 até os nossos dias.
Pioneirismo nas letras – Mas, algum leitor astuto perguntará, como ele pode ter publicado uma coletânea referente aos anos de 60 e aos cinco primeiros anos de 70 se na cidade não havia ainda uma geração em idade suficiente para formular idéias, quanto mais para publicar literatura séria? “As primeira coletâneas que organizei trouxeram a contribuição literária dos pioneiros de Brasília: escritores, jornalistas e políticos que vieram para cá e já tinham um passado consolidado no terreno das Letras”, explica Joanyr – ele mesmo um pioneiro, que um dia integrou a turma do primeiro vestibular e do primeiro ano do curso de Letras da UnB. Pioneiro que hoje sofre com o pouco-caso e o desconhecimento da imprensa com relação ao seu trabalho e o de seus pares. Participante de coletâneas e de outras publicações, funcionário aposentado da Câmara dos Deputados, ele está presente em livros e periódicos editados em Argentina, Estados Unidos, Canadá, Portugal, Espanha, França, Itália e Índia. Em nosso país, ele tem adquirido a estima e o apreço do falecido conterrâneo Carlos Drummond de Andrade e de vários outros expoentes da crítica e da poesia. Joanyr acredita que um dos principais fatores que levam à ausência de horizontes literários na cidade se deve principalmente ao contexto histórico: “Brasília foi erguida um pouco antes da ditadura militar, e isso deixou seqüelas, cicatrizes fundas mesmo, difíceis de aplacar”, conta.
Para ele, a censura às publicações, durante muito tempo, e a proximidade com o poder trouxeram um empobrecimento quantitativo da nossa literatura. Além disso, ressentimo-nos de um grande problema: a ausência na cidade de editoras capazes de também distribuir os livros que saem de seus prelos. “Nos EUA, onde vivi durante seis anos, existe uma política que incentiva o aspirante a escritor, adestrando-o e profissionalizando-o. O autor jamais precisa desembolsar seus dólares para ver seu trabalho publicado, nem há de ter qualquer preocupação extra-literária, uma vez que se reconhece que o trabalho do escritor deve cingir-se ao seu (já áspero) oficio: o de escrever”, diz o entrevistado.
Segundo ele, outro problema (só que nacional) ainda contribui para tal vácuo na coluna literária do DF: a excessiva cultura televisiva, que desmotiva a leitura. Joanyr tem esperanças de que o escritor candango se torne conhecido no momento em que (algum dia...) se resolva cumprir à risca o artigo 235, parágrafo 2º, da Lei Orgânica do Distrito Federal, promulgada em 1992, que dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino da Literatura Brasiliense nas escolas públicas.
E surgem os vates candangos – Todo o apurado e minucioso trabalho seletivo realizado por Joanyr de Oliveira vem a tempo de registrar o resgate de uma história cultural: relaciona exaustivamente autores, prêmios literários e textos de escritores basicamente “invisíveis” para os suplementos de cultura.
“Quando eu vim para cá, em 1960, impressionou-me o número de pessoas, entre nós, que eram também escritores. Na condição de servidores públicos, professores, etc, optaram pelo Centro-Oeste.
Como jornalista e iniciante na literatura, eu convivia com eles, entrevistava-os e lhes divulgava os trabalhos. Em poucos meses, já havia aqui uma comunidade constituída de autores procedentes de vários estados”, lembra Joanyr de Oliveira. Alguns eram nomes destacados em suas respectivas províncias. Eles participavam dos marcantes encontros nacionais de escritores, que projetavam autores nacionalmente, com prêmios a ensaístas, poetas e ficcionistas, como, por exemplo, o jovem contista Luís Vilela. “Laureado, ele estreou em 1967 com ‘Tremor de terra’, livro que o consagrou definitivamente. Já em 1961, realizava-se aqui o primeiro concurso literário, patrocinado pelos Diários Associados”, recorda o entrevistado, ele mesmo um dos laureados. A comissão julgadora era integrada por ninguém menos do que Manuel Bandeira, Sílvio Castro e Waldir Ribeiro do Val.
Sobre a situação do escritor candango, Joanyr é tácito: “Todo o meu trabalho busca refutar a idéia equivocada de que na Capital Federal só temos subliteratura. É verdade que nos agride aqui um oceano de péssimos livros, principalmente pela facilidade de se editar em uma gráfica, e não em uma editora de fato – esta prefere critérios seletivos sérios, rigorosos”. Mas não é justo nem correto generalizar. Ele argumenta que muitos prosadores e poetas radicados no Distrito Federal estão entre os mais laureados do País, como é o caso de Anderson Braga Horta e Ronaldo Cagiano, dentre muitos outros. “Na maioria dos concursos literários, há sempre a presença de um brasiliense”, Joanyr revela.
Para ele, um reduto fecundo de trabalhos referentes à literatura local é o meio acadêmico. Nele atuam com inquestionável proficiência, apagando, com sua autoridade, o estigma com que muitos intentam anular a obra dos bons e autênticos autores candangos. Dissertações de mestrado como as de Maria da Glória Lima Barbosa (“O cristal e a chama: a linguagem literária que traduz o objeto Brasília”) e de José Roberto de Almeida Pinto (“Poesia de Brasília: duas tendências”) ajudam a tornar pública a qualidade da produção dos brasilienses.
Segundo o escritor Napoleão Valadares, na sua antologia intitulada ‘Contos correntes’ (Ed. Thesaurus), o lirismo tem predominância sobre a prosa da Capital por uma questão de gênese literária: “a poesia nasce sempre primeiro”, argumenta, tentando explicar o fato de existirem mais poetas do que contistas e romancistas em Brasília.
Legado – Que herança tal cegueira com relação à cultura da cidade pode legar às gerações posteriores e mesmo a esta que vive hoje aqui? “Esta lacuna poderá resultar em uma completa ausência de identidade regional, trazendo a perda de um sentimento de cidadania brasiliense”, pondera Joanyr. “A visão estreita e distorcida do nosso ofício pode agravar a atitude de desapreço aos valores locais que atualmente experimentamos. Se passarmos os olhos pela cultura dos outros estados, iremos perceber, por exemplo, que os escritores catarinenses e gaúchos são venerados pelos conterrâneos; em Goiás, os autores locais são estudados na Universidade; no Nordeste nem se fala. Para resolver isso, faz-se necessário o ensino efetivo da nossa literatura nas escolas e faculdades, além de uma imprensa mais aberta. A existência de muita literatura de gosto duvidoso em nossa cidade não justifica a ignorância com relação aos autores de qualidade. Nossa literatura, a realmente representativa, é de altíssimo nível”, enfatiza.
Branca Bakaj, presidente da Associação Nacional dos Escritores (ANE) – entidade existente desde 1963, que teve como fundador e presidente o escritor mineiro Cyro dos Anjos e conta com representantes de todos os estados -, acredita que parte desta insensibilidade e deste desconhecimento com relação à literatura candanga se deve a uma mentalidade nacional preconceituosa de que “Brasília é a capital do desperdício, onde ninguém trabalha”. Ela explica que, para muitas pessoas de outros estados, ainda não foi assimilada a mudança da Capital Federal para Brasília e que existe uma tendência à rejeição de tudo o que é produzido aqui. E isso se reflete nas pessoas procedentes de outros estados que vêm trabalhar no DF.
Apesar das agruras e dos esforços perdidos, a prosa e a poesia que emanam do chão do cerrado nunca se perdem – continuam perpetuando sua herança poética de consciência e futuro, levantando talentos para as colheitas do amanhã, como o chamamento profético dos versos de Anderson Braga Horta em “Stella nubilla”: “Vem e instaura o deserto em que sozinha/consteles todo o espaço de teus olhos!/E das cinzas fecundas me renasce”.
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.
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30 de Novembro de 2009 |
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Praça Cósmica
Quero casa bonita naquela praça
onde Deus mora talvez ninguém
avistarei rotas de outros mundos
ouvirei os pássaros das estrelas
seus inconfidentes piscados
nenhuma dor ressoar neste chão sem túmulo
ânsias humanas todas sepultadas
ambições morrer sem reclamar
como cordeiros sacrificados
naquela praça
portas não precisar chaves
não haver súditos nem rei
todos pertencer mesma classe
mesma cor
obedecer à mesma lei
paz única lei deverá cumprir-se
morte ninguém pedir silencio
todos eternizados no amor
enamorados da vida
quero casa bonita naquela praça
onde ninguém mora talvez Deus
avistarei rotas de outros mundos
ouvirei os pássaros das estrelas.
Ângelo D’Ávila, poeta mineiro, natural de Araxá.
Poema transcrito da antologia “Geografia Poética do Distrito Federal”, de Ronaldo Alves Mousinho.
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20 de Novembro de 2009 |
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SAVANA APAIXONADA
Longe do céu,
sem meus galhos retorcidos
de savana apaixonada,
sou uma árvore desolada.
Deste solo que alimenta
perdi minha morada.
Dos meus galhos retorcidos
de savana apaixonada,
onde o sabiá fazia morada
não restou nada.
Quando a chuva aqui cessou,
uma sede sem piedade
varreu minha morada.
Não canta mais aqui
nem um pobre bem-te-vi.
Hoje cedo, bem cedinho,
deixou a vida um passarinho.
João-de-Barro consternado
bateu asas sem destino,
pois seu filho pequenino
um infante, João menino,
hoje cedo, bem cedinho,
de fome, morreu no ninho.
E eu, triste, abandonado,
sou um cerrado desolado,
não vejo mais um ramo novo,
não vejo flores, não vejo nada.
Longe do céu, sem meus galhos
retorcidos de savana apaixonada,
sou uma árvore desolada.
Lurdiana Araújo, poetisa tocantinense, nasceu em Filadélfia.
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